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terça-feira, 11 de outubro de 2016

"UM CÂNCER NO SEIO DE NOSSA FAMÍLIA" por Cleide Freitas e Sérgio Antunes de Freitas

CÂNCER: UM PERRENGUE EM FAMÍLIA

Aproveitando o "gancho" do meu livro II "Câncer de mama: não morri...nem de medo", capítulo "O poder da escrita" gostaria de lhes apresentar o perrengue EM FAMÍLIA! rsrsrs
Não é ficção ou novela! Geralmente é o paciente ou vítima da doença que escreve o que passou ou está passando em diários escritos ou num blog, MAS no livro "Um câncer no seio da nossa família"  de Cleide e Sérgio Antunes, o casal resolveu escrever um diário em dupla. Tudo o que eles passaram simultaneamente.
É UMA IDEIA GENIAL que me faz inveja. 
"POR QUÊ?" Você me perguntando.
E eu: 
"Porque eu não teria inventado tantos monstros sobre o casamento, a relação casal/família/sexualidade, trabalho, etc, no perrengue e provavelmente eu e meu ex-marido (fiel escudeiro na dor, estaríamos muito mais unidos e sem tantas metástases psicológicas por não dialogar nossos sentimentos, medos, desconfortos e o escambal também!Afff 
PARABÉNS CLEIDE E SÉRGIO e família por compartilhar e solidarizar com muitas pessoas o que passaram ou vivenciaram com "UM CÂNCER NO SEIO DE NOSSA FAMÍLIA". Muiiiiiiiiiiiiiiiiiiito obrigada e que DEUS OS ABENÇOE! Bjin e tudibão. Marina
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ENTÃO...QUE TAL LER O LIVRO: UM CÂNCER NO SEIO DA NOSSA FAMÍLIA  por Cleide Antunes e Sérgio Antunes? BRIGADÃO!  Marina.


 UM CÂNCER NO SEIO DA NOSSA FAMÍLIA

Registro n.º 568.590, Livro 1.085, Folha 155 – Biblioteca Nacional
Cleide Maria Pereira de Freitas e Sérgio Antunes de Freitas





PREFÁCIO
ALDO PAVIANI*

São inegáveis os avanços médicos para dar conta de inumeráveis males que
afligem a Humanidade. Há processos e pesquisas de longa duração e, por
vezes, anuncia-se um novo medicamento ou novas formas de utilização dos
mesmos. Há também avanços tecnológicos nos equipamentos auxiliares para
diagnósticos mais seguros. Todos nós sabemos que a modernidade chegou ao
campo da medicina, o que leva à reciclagem, continuada, dos profissionais da
área. E mais: devem comparecer a eventos científicos para apresentar suas
contribuições ao debate.
Com isso, a ciência médica avança.
Claro está que nos paises desenvolvidos as possibilidades são maiores em
todos os campos, da descoberta à aplicação, do remédio às máquinas. Os
investimentos público-privados chegam com maior rapidez aos centros de
pesquisas, laboratórios e, logicamente, aos enfermos. Nesses paises também,
há pessoas abonadas capazes de financiar todos os encargos para curar suas
enfermidades. Há ainda a possibilidade de esses abonados contribuírem por
intermédio de doações e apoio à pesquisa. Há até associações que se
encarregam de orientar doações e como deduzi-las no pagamento de
impostos. Isso aumenta em muito o potencial das pesquisas, sobretudo quando
governos reduzem dotações orçamentárias para a saúde e para as pesquisas.
Nos paises subdesenvolvidos, as enfermidades avançam como a AIDS,
Alzheimer, Doença de Parkinson, doenças do coração, osteoporose e os
inúmeros tipos de câncer. Esses paises dependem de ajuda humanitária e
mesmo, por vezes, se transformam em cobaias para experimentos de
fabricantes de medicamentos. Nos paises pobres, importam-se todos os tipos
de aparelhos para detectar moléstias variadas, facilitando o diagnóstico
precoce e a subministração de remédios. Quanto aos medicamentos, então,
nem se cogita de não importá-los, pois a dependência é total, a ponto de
inúmeros laboratórios fixarem-se nesses paises ou criarem vínculos com os
laboratórios existentes. Seus executivos entendem que, assim fazendo, terão
retorno rápido, sobretudo se tiverem, como no caso brasileiro, facilidades
fiscais ou outros incentivos para a implantação de unidades produtivas.
Todavia, nesses paises, não são todas as classes sociais que têm acesso aos
aparelhos e procedimentos modernos e, muito menos, aos medicamentos de
última geração, inacessíveis pelos custos elevados para os pobres ou para os
que não têm convênios suportados por instituições públicas ou privadas.
Apesar de todos os recursos disponíveis nas grandes cidades brasileiras,
certas enfermidades vêm acompanhadas de uma série de doenças paralelas
ou derivadas, como as de fundo psicossomático. É o caso da Doença de
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Parkinson, que agora a ciência vem sustentando ser precedida de depressão.
Depressão também sucede às pessoas que sofreram de outras doenças como
Alzheimer, o câncer de mama, etc. Tanto na mastectomia, quanto na doença
de Parkinson, a depressão se enraíza e coloca desafios e sacrifícios nos
pacientes e em seus familiares para superar o cotidiano, tal como relatado por
Cleide Maria Pereira de Freitas e Sérgio Antunes de Freitas nesta obra.
Um câncer no seio de nossa família contém depoimentos que desnudam com
coragem o que se passa com o paciente desde o dia em que o mal foi
detectado e, subsequentemente, cada iniciativa para enfrentar todos os
grandes obstáculos e vencer a doença insidiosa. Cleide e Sérgio relatam suas
dúvidas, enfrentamentos e as ações corajosas para chegar a bom termo – a
cura. É um exemplo ilustrativo da coragem e vontade de viver, superando os
sobressaltos do cotidiano. Um escrito acessível e encorajador, repleto de
sensibilidade.
Para os que possuem problemas assemelhados em suas famílias, o relato é
pedagógico e profundamente esclarecedor de cada passo no cotidiano da
portadora da enfermidade e o que se passa no ambiente familiar. Cada decisão
tomada retrata, com discernimento, a coragem e a determinação como
manifestações de fé na superação do dia-a-dia, das consultas médicas, dos
exames laboratoriais e das dolorosas quimioterapias e radioterapias. Em
alguns momentos, são essas ações afirmativas que levaram, a paciente e seus
familiares, a argumentar sobre decisões médicas, até obter os esclarecimentos
necessários à tomada de decisão. Nesse caso, seguem ao pé da letra as
orientações desses mesmos médicos para os procedimentos necessários e/ou
aconselhados para a mastectomia radical.
Os relatos de Sérgio e Cleide podem colaborar, em muitos aspectos, com
todos os que passam por sofrimentos assemelhados, quanto aos
procedimentos, consultas e exames. Ressalta-se a harmonia na relação
médico-paciente. Na relação paciente-instituição hospitalar houve necessidade
de contra-argumentar, ficando a paciente sem resposta.
Logicamente, esse depoimento não é um roteiro a ser seguido por todos em
tais situações, mas apresenta-se como parte de um momento na história de
vida, cujo relato se realizou de forma acessível, objetiva e honesta.
A leitura nos faz indagar “até quando se necessitará de mastectomia radical
para fazer frente ao câncer de mama?”. Além disso, não é demais sonhar que,
num futuro não muito distante, as mulheres possam ter outro tipo de solução.
Em conclusão: fica-se com a forte impressão de que valeu a pena aos autores
ter coragem na obstinada luta contra o mal sorrateiro, com fé, coragem,
determinação e, sobretudo, vontade de viver por parte da paciente, contando
com o irrestrito apoio de uma família unida, carinhosa e solidária.
Cleide Maria Pereira de Freitas e seus familiares merecem cumprimentos por
seu belo exemplo de luta continuada durante os anos de superação emocional
e física dos efeitos deixados pelo câncer de mama. Merecem também
parabéns pela exibição de solidariedade e fé tanto em Deus, como no próximo
e na vida.
Brasília, 12 de janeiro de 2008.
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*ALDO PAVIANI, geógrafo, é Professor Emérito da Universidade de Brasília - UNB
APRESENTAÇÃO
O câncer de mama atinge uma em cada oito mulheres no
mundo, sendo que, no Brasil, a estimativa é de 52 casos para
cada 100.000 mulheres.
Apesar dos avanços conquistados na oncologia, apenas
um terço das mulheres tem o diagnóstico em estágio precoce,
com reais chances de cura.
Este livro retrata o outro lado da moeda, a visão do paciente e
de sua família diante de um arsenal de informações sobre o
câncer de mama e seu dilema, perante decisões importantes
sobre o tratamento, que afetam o futuro e a qualidade de vida
de todos eles.
É uma leitura de linguagem simples, porém com muita
sensibilidade, o que indubitavelmente trará conforto e
esperança a muitas mulheres que enfrentam ou já enfrentaram
UM CÂNCER NO SEIO DA PRÓPRIA FAMÍLIA.
Diante desse desafio, a única certeza é que só há uma
coisa a fazer: lutar, lutar e lutar... Enquanto aguardamos a cura.
DRA. FABIANE KELLEM O. DOS S. CESÁRIO
ONCOLOGISTA CLÍNICA
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“O maior erro médico é querer curar
somente o corpo e não toda a pessoa.”
(Platão, filósofo grego)
Cleide (Introdução)
Eu costumo dizer: se Deus me colocou numa situação destas, é por
que tinha algo muito maior para mim.
Queria me colocar na frente deste turbilhão, para ver onde eu devo
chegar. E eu vou chegar.
No meu caminho, tenho encontrado colegas, amigos e conhecidos
que me procuram com palavras e gestos de carinho. Alguns contam
histórias vividas por eles próprios, falam sobre experiências com
pessoas da família ou próximas, porém encontrei alguns
silenciosos. Não dizem nada, apenas me olham e abraçam-me. É
bom sentir aquele abraço forte, aquele olhar profundo e revelador,
dizendo tudo e muito mais do que se poderia simplesmente ouvir. A
gente chega a sentir toda a energia, positiva, que querem passar. É
maravilhoso!
A todos esses seres diferenciados, aos que me procuram para um
abraço, aos que dizem rezar por mim, eu agradeço. Peço que
rezem, sim, mas não apenas por mim. Há tantas pessoas carentes,
também doentes, sem acesso a esses tratamentos tão caros; há
crianças - muitas vezes sem saber a dimensão do que lhes agride;
todos necessitam de afeto, apoio, carinho e preces.
Eu soube por voluntários que muitos não têm nada para comer nem
no dia em que vão fazer uma sessão de quimioterapia. Imaginem
sair do hospital extenuado, sonolento, faminto, cambaleando sob os
efeitos da medicação e, ainda, só!
A solidão é também uma doença ruim. Por benção, dessa eu não
sofro.
Devo registrar, nesta minha história, a presença de uma
companheira maravilhosa em nossas vidas, minha e de minha
família. Há 19 anos, ela chegou ao nosso lar, para ser babá de
nossa primogênita, e ficou. É a Tia Rosa (Êta! Mulher de fibra!), de
personalidade forte, batalhadora, honesta, sincera, digna. Não, não
tem espaço para descrever os adjetivos que ela merece. Eu só
posso agradecer a sua dedicação por mim e principalmente pelos
meus filhos. Tia Rosa não é um simples título dado carinhosamente
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por nós, é nossa Tia Rosa. Nisso, somos meio egoístas e
possessivos: ela é nossa, mas é assim que nós a amamos. Meu
marido sempre fala: - Para a Tia Rosa, tudo, sempre.
(Se um dia chegar a ler estas linhas, Tia Rosa, saiba do nosso mais
sincero respeito e agradecimento por tantos anos de amizade, pois
tudo o que fez e faz por nós não tem preço. Agora, então, com o
meu tratamento, não poderia ter amiga, confidente, enfermeira, irmã
mais presente do que você.)
Eu e meu marido resolvemos deixar registrada nossa trajetória em
busca do meu tratamento, provando, de alguma forma, que o
importante é não deixar o mundo cair, como consta do título de uma
música antiga.
Claro que nossas vidas deram uma reviravolta intensa, nossa rotina
foi alterada e principalmente nossos valores. Aí é que recomeçamos
a aprender.
Eu acredito que nós dois conseguimos passar um pouco dessa
garra para nossos filhos ou, pelo menos, tivemos tal intenção,
mostrando a eles que o importante é caminhar. E parece mesmo
que conseguimos, pois a tranqüilidade, a paz e o equilíbrio estão
presentes em nossa casa. E isso é lindo! Lindo mesmo!
Garra? Pois é, achei que nem teria tanto. Um dia, uma amiga de
trabalho me abraçou e disse: - Amiga, você é um exemplo para
mim, guerreira!
Será? Será que é isso mesmo que estamos conseguindo passar
adiante? Se for, então, eu consegui vencer mesmo!
Sérgio (Prolegômenos)
Minha sogra faleceu, há quinze anos, de complicações decorrentes
do câncer na mama.
O histórico familiar recomendava que suas filhas ficassem atentas
ao surgimento de tumores ou assemelhados.
De repente, nos deparamos com uma espécie de endurecimento
rápido na mama direita da Cleide. Houve um indicativo de algum
tipo de displasia e, como imaginou a médica, uma inflamação dos
ductos mamários. Realmente, não parecia um caroço, como
normalmente imaginamos serem os tumores.
Como o problema não era resolvido com os medicamentos
prescritos, passou-se a pesquisas mais profundas.
Depois de vários exames, uma punção foi feita e o material
remetido ao laboratório.
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Ela me mostrou o resultado, já sabendo do que se tratava. Havia
dois carcinomas, provavelmente mascarados pela inflamação dos
ductos, na minha leiga interpretação.
Tudo que termina em “oma”, segundo meus parcos conhecimentos
nessa área, não é coisa boa! Deve existir exceção, mas não era o
caso.
Vislumbrando todos os tipos de problemas emocionais, em todos os
lados, fiquei ansioso por saber o que iria enfrentar. Entretanto,
consegui dominar a ansiedade e tentei agir com o máximo de
tranqüilidade possível.
A palavra-chave era planejamento, como sempre. Quanto mais
grave for a situação, mais planejado deve ser o seu enfrentamento.
Do ponto de vista de plano de saúde, estávamos razoavelmente
cobertos e isso pouco me preocupava.
Minha preocupação mesmo, além das más impressões que o
estigma dessa doença deixou em nossa cultura, era o desconforto
de minha esposa e a reação de nossos filhos, Marina, com dezoito
anos, e José Henrique, com quase catorze anos.
Propus que registrássemos nossa experiência em uma espécie de
livro, pois eu tinha a certeza que teríamos um final feliz. Era uma
forma de obrigá-la a vislumbrar a meta a ser atingida, o ponto de
cura. Rumo na vida, sempre faz bem!
Começamos a escrever na forma de um diário, talvez um
semanário, mas os acontecimentos e as revisões tiraram um pouco
a ordem cronológica.
De certa forma, ficou coerente com a nossa idéia de que a vida não
é linear. Ela acontece em muitas dimensões!
Cleide (14 de setembro de 2005)
Como tudo começou?
Creio ser uma pessoa que sabe se cuidar. Sou criteriosa e procuro
sempre meus médicos, nas épocas certas, a fim de fazer todos os
exames solicitados.
Há um ano, fui fazer os de rotina, relativos à mama: mamografia e
ecografia mamária. Os resultados me assustaram, pois não sabia
do que se tratava. Meus médicos concluíram, com firmeza, por
inflamações nos ductos mamários e, portanto, exigentes apenas de
um acompanhamento semestral, mais em razão da história de
câncer na família. Há vinte anos, minha mãe teve a doença e teve
que se submeter a uma mastectomia total.
Obediente, repeti meus exames em julho de 2005, quando já estava
sentido um incômodo maior, com dores locais. A mastologista pediu
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os exames de sempre, os quais acusaram as mesmas inflamações
passadas, porém os exames de toque não eram compatíveis com
os resultados da mamografia. Recomendou, então, fazer uma
punção para biópsia, mas isso também não a deixou satisfeita.
Orientou-me a fazer um exame mais moderno, de nome “core
biopsya” (biópsia do núcleo), com anestesia local, uma espécie de
punção com agulha mais grossa.
Através de ecografia, o médico acompanhou o referido exame e eu
vi perfeitamente, no monitor à minha frente, uma mancha que me
pareceu incomum. As palavras do médico bateram como um
martelo na minha cabeça.
- Está aí, é um nódulo; cresceu muito rápido; vamos fazer uma
punção, antes da “core biopsya”, pois não posso fazer aquela sob
anestesia. Estou vendo também um outro nódulo menor.
De pronto, caí no choro. Pensei e lembrei de tudo que minha mãe
sofreu. Na minha mente, o filme passou rápido, mas foi o suficiente
para eu me apavorar.
Sai de lá amparada pelo meu marido, que tentava por todos os
meios me deixar calma e esperar o resultado da biópsia.
Aconselhou-me bem: - Não vamos sofrer por antecipação.
(19 de setembro de 2005)
Calada, saí do trabalho e fui buscar o resultado da biópsia. Não sei
pegar um resultado de exame sem abri-lo antes do médico. Estava
lá: “Carcinoma e neoplasia de Grau III, nos dois nódulos”.
Pensei que não iria conseguir dirigir de volta para casa. Dentro do
carro, pensei: eu vou lutar, vou fazer o tratamento e tudo que me for
oferecido para a cura.
Cheguei em casa, esperei o Sérgio chegar. Conversamos, chorei
muito e concluímos: - É isso aí, vamos partir para a luta.
(21 de setembro de 2005)
Levamos os exames para o médico. Confirmadas as nossas
suspeitas, qual seria o tratamento?
Para começar, exames de tudo, fígado, baço, estômago, coração,
densitometria óssea, cintilografia óssea. Uma esperança para me
fortalecer: não há metástase em lugar nenhum do corpo. Só
existem mesmo os nódulos locais da mama.
Meu médico explicou que, hoje em dia, faz-se quimioterapia antes
da cirurgia; é o chamado tratamento neo-adjuvante.
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Orientada por ele, efetuei imediatamente uma consulta com o
oncologista. No CENTRO ESPECIALIZADO EM ONCOLOGIA -
CEON, conheci o Dr. Marcos Vinícius. Ele explicou como seriam os
tratamentos, os sintomas etc. e deixou uma frase que me chamou
muito a atenção, pois trouxe mais luz para a minha compreensão.
Disse ele: - O tratamento deve ter três formas: a primeira é a física,
que fazemos no consultório com as medicações, intervenções e
outros procedimentos; a segunda é ter o apoio da família e dos
amigos e a terceira, talvez a mais importante, é a fé.
Orientou-me também a cortar o cabelo, pois iria cair mesmo. Melhor
se estiver curtinho. Planejei cortar o mais brevemente possível;
afinal, sou uma paciente disciplinada.
O tratamento proposto é de três ciclos de quimioterapia, com
intervalos de vinte e um dias entre eles. Depois, uma avaliação e,
se houver redução do nódulo, haverá um quarto ciclo. Em seguida,
será efetuada a cirurgia, para a retirada dos nódulos.
Sérgio (24 de setembro de 2005)
Depois de muitas conversas - conversas de casal, decidimos por
algumas medidas.
Em primeiro lugar, devido principalmente aos avanços da Medicina,
vamos cultuar a idéia de sair dessa... e com o menor desconforto
possível.
Em segundo, só comentar o caso quando for sobre assuntos
práticos, como a marcação de consultas, exames, aquisição de
medicamentos.
Também iremos transformar nossa casa em um ambiente mais
agradável ainda. Mais músicas, tranqüilidade e humor. Bastante
humor, que é um excelente coadjuvante para qualquer tratamento
de saúde.
Fiquei encarregado de contar aos filhos. O José Henrique será
informado na próxima segunda-feira, quando eu for buscá-lo no
colégio. A Marina viajou para outra cidade, a fim de disputar um
torneio de basquete. Ela não poderia ficar sabendo antes, pois isso
poderia prejudicar seu desempenho ou atrapalhar a sua viagem, o
que não ajudaria em absolutamente nada. Ela será informada no
seu retorno, com bastante cuidado, pois ser mais sensível a esse
tipo de assunto.
E, como buscamos o bom-humor, resolvi “raspar” a cabeça. Não
custava fazer mais uma piada: - Aqui em casa é assim: a mulher faz
a quimioterapia, mas o marido é que fica careca. O problema é se
ela resolver engravidar de novo. Eu não suportarei o parto!
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Como eu já havia raspado a cabeça em outra ocasião, o José
Henrique não desconfiou de nada.
(26 de setembro de 2005)
Normalmente, em meus deslocamentos de rotina, observo o tempo,
olho as árvores, acompanho o horizonte, enfim, procuro curtir a
natureza. Aqui em Brasília, andamos em meio a muita vegetação,
na companhia de pássaros. O padrão urbanístico da cidade permite
mais ainda esse meu deleite.
Nesta manhã, eu não vi nem ouvi nada. Dirigi o carro de modo
automático. Saí do serviço na hora do almoço, para buscar o José
Henrique na escola, determinado a lhe contar sobre o câncer de
sua mãe - o nosso câncer. Eu já estava com o discurso decorado e
foi só administrar. Administração difícil!
- Filhão, eu vou precisar de sua ajuda. Vou lhe informar de um
problema, mas vou falar de trás para frente. Em primeiro, sua mãe
não vai morrer e isso é o mais importante.
Continuei - Ela está com um tumor no seio, vai precisar fazer um
tratamento doloroso e provavelmente uma cirurgia.
Dirigindo o carro para casa, olhei para o lado e o vi, quieto, com os
olhos cheios de lágrimas. Vacilei por um instante, engoli em seco,
fiquei quieto por mais alguns segundos e voltei ao assunto.
- Um pai de família pode cometer muitos erros na vida, mas deve
manter a harmonia em seu lar a qualquer preço. Para isso, eu vou
precisar muito de você.
Ele continuava quieto e eu continuei o discurso, com curiosidade
sobre a sua próxima reação: - Quero você mais obediente do que já
é, sem discussões desnecessárias e tratando sua mãe com muitos
sorrisos e beijos. Isso, todo médico afirma, ajuda a curar mais
rapidamente qualquer doença. Depois da retirada do tumor, tudo
voltará à normalidade.
Nesse momento, ele reagiu assustado: - É um tumor maligno?
- Sim, claro que é, por isso deve ser extraído – respondi. Se não
fosse, talvez nem precisasse retirar.
Mais alguns poucos comentários objetivos, como a quimioterapia
marcada para o dia seguinte, e mudamos para outros assuntos.
Suportei o primeiro round, como se diz no box! Machucado, mas
inteiro.
Cleide (27 de setembro de 2005)
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Iniciei o tratamento. Fiz o primeiro ciclo da quimioterapia. Antes,
passei por mais um exame clínico, com a mesma oncologista, para
manter o acompanhamento bem rigoroso.
Ela explicou sobre os enjôos decorrentes dos medicamentos, da
iminente queda dos cabelos, além de orientações alimentares,
cuidados com higiene pessoal e a recomendação de evitar
aglomerações nos primeiros sete dias, após a aplicação.
O corpo fica debilitado e o contato com muitas pessoas pode levar a
complicações desnecessárias, em razão de doenças denominadas
oportunistas.
Sérgio (27 de setembro de 2005)
Na primeira sessão de quimioterapia, minha irmã, Marisa, resolveu
nos acompanhar, por solidariedade à cunhada e ao irmão.
Enquanto a Cleide tomava o soro com os medicamentos, nós
conversamos e trocamos idéias sobre qual o melhor
comportamento a ser adotado em um caso desconhecido para nós.
Isso reforçou muito o comportamento pretendido por todos.
Durante o encontro, a cada mordida no pão-de-queijo ou gole de
café, eu via trechos de nossas vidas. Sempre estivemos juntos, nas
brincadeiras da infância, nos sonhos de adolescência, nas
dificuldades da vida adulta. E, agora, tenho mais esse cromo de
companheirismo.
Na saída, a Cleide estava sonolenta, mas aceitou tomar um
chocolate com pão de queijo. Pelo seu comportamento, não deve
ter sentido gosto de nada.
Nos próximos três dias, deverá passar muito mal, com muitas dores
e enjôos. Estou preocupado com o ambiente emocional que
teremos.
Cleide (30 de setembro de 2005)
Três dias depois da primeira aplicação da quimioterapia, senti um
enjôo, parecido com o de grávidas, no início da manhã. Coisa bem
leve, em comparação com relatos que me fizeram e com as crises
de enxaqueca que me atordoam de vez em quando; tive muito sono
e tonteira, mas nada desesperador.
Cleide (1.° de outubro de 2005)
Hoje, foi a mesma coisa. Eu confesso, esperava coisa bem pior.
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Segui minha rotina normalmente; até trabalhei algumas horas, sem
me descuidar nem um pouco das orientações médicas.
No geral, tenho me sentido bem fisicamente, porém, às vezes,
tenho momentos de depressão. Deve ser natural.
Prometi, após a minha cura, entrar para um grupo de voluntários, a
fim de ajudar pessoas carentes, com problema de câncer, pois, é
mesmo certo, amor e carinho são excelentes remédios para ajudar
no tratamento.
Amor e carinho tenho tido de todos ao meu redor.
Meu marido, acima de todos, tem me surpreendido dia a dia. Ele
esteve sempre presente em todos esses anos de nosso casamento
e, agora, com esta doença, a atenção dobrou; não tenho queixas,
só agradecimentos.
A família, irmãos, tios, cunhados, meu pai, todos sempre me
procuram, tentando dar algum tipo de apoio. É bom poder contar
com todos.
Estou relatando isso por que o médico disse ser importante para o
tratamento. Chega a ser considerado cinqüenta por cento do
sucesso.
E eu fico mais segura para enfrentar o que vem pela frente.
Sérgio (2 de outubro de 2005)
A Marina chegou, de ônibus, com toda a equipe de basquete, às
cinco horas da manhã.
Fui buscá-la na porta do colégio, ponto de encontro combinado
entre pais e professores.
Ao me ver careca, assustou e perguntou a razão, desconfiada do
diagnóstico da mãe: - É solidariedade?
Eu desconversei e, aproveitando que o pai de sua colega, também
presente para pegar a filha, era careca, respondi: - Eu quero ficar
inteligente como ele!
Sem se dar conta da presença do homem, virou para a amiga e,
boca suja, comentou: - Olha a merda que meu pai fez na cabeça!
O careca de verdade, muito simpático, riu da inocente reação.
Nada adiantaria mais, ela já estava sob tensão.
No caminho de casa, ela perguntou se havia saído o resultado dos
exames de sua mãe. Como eu e a Cleide havíamos combinado
deixá-la descansar da viagem, em primeiro, para depois darmos as
notícias, desconversei mais uma vez: - Depois entraremos nos
detalhes, mas eu sei o que você está querendo saber: sua mãe não
vai morrer. Assim está bom?
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Ela assentiu e chegamos em casa sem agitações. Eu me deitei e
ela, após beijar a mãe, foi tomar banho para um sono mais
tranqüilo.
Eu já havia me aprofundado no sono, quando ela saiu do banheiro e
foi à cozinha beber água.
Nós tínhamos esquecido de tirar da parede um papel com as
orientações da clínica sobre os procedimentos pós-quimioterapia.
Ela voltou voando para o quarto e exigiu explicações.
Deitaram-se na rede da varanda do quarto, as duas, e eu só ouvia a
Marina chorar, sem compreender bem o que ela dizia entre soluços.
Senti que não cabia minha intervenção. Era um momento só delas.
Ademais, eu não estava em condições de intervir, pois não havia
me preparado para esse imprevisto.
Acordei umas duas horas depois e olhei pelo vidro. Ambas dormiam
abraçadas. A Marina com a cabeça no peito da mãe.
No resto do domingo, nossa filha alternou momentos de choro e
momentos de resignação e otimismo.
Com a chegada de uma amiga, desabafou e se estabilizou
emocionalmente. Adolescentes se entendem melhor.
Cleide (12 de outubro de 2005)
Doze dias depois do primeiro ciclo da quimioterapia, comecei a
sentir meus cabelos caírem em maior quantidade. Engraçado, eu
não sabia, até os pêlos pubianos se foram; na cabeça ainda tem
alguma coisa, mas tenho medo até de lavá-la, com o receio de cair
tudo de uma vez.
Tudo bem! Vou usar peruca, bandanas, lenços, chapéus. Verei
como vai ficar. Vou criar o meu próprio estilo.
Cleide (13 de outubro 2005)
... e o cabelo continua caindo, vou ficar careca, com certeza! (Risos)
Cleide (15 de outubro 2005)
Está um calor infernal. Acordei com vontade de ficar dentro de uma
geladeira. Fui tomar um banho para me refrescar. Como havia
suado muito durante a noite, resolvi lavar os cabelos. Que cabelos?
Nossa! O susto foi grande. Quando passei a mão com xampu na
cabeça, veio uma quantidade enorme deles, grudados nos dedos, e
outra parte foi escorrendo pelo corpo. Sem dúvidas, estava na hora
da raspança.
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Eu e o Sérgio saímos para a feira da semana, logo de manhã. Eu
sentia meu cabelo ralinho.
Aproveitamos para passar em uma loja e comprar uma peruca de
cabelos sintéticos. De lá, fui ao cabeleireiro e pedi para raspar a
cabeça.
Anteriormente à queda, eu achei que não iria fazer igual a uma atriz
da novela. Raspar a cabeça para quê? Vai cair mesmo, é besteira!
Engano meu. A sensação de, a cada segundo, sentir escorrer
cabelos pelos braços e costas foi bem pior do que me ver careca.
Depois do corte, assustei, chorei, mas fique aliviada. Pelo menos,
não tem mais o que cair. Não tem mais aquela impressão de coisa
nojenta, descuidada, o que eu não sou. Nunca fui.
Dentro de casa, sinto-me ótima. A turma apóia e brinca mesmo com
a minha calvície temporária. Carinho para todos os lados e nada de
constrangimentos.
Cleide (17 de outubro de 2005)
Hoje é uma segunda-feira. Fui trabalhar normalmente, de peruca, é
claro! Até na hora que desci do carro, tudo bem! Depois disso, me
senti como uma pessoa disfarçada, para não ser reconhecida, a
própria gângster!
Fiquei me sentindo mal, tive raiva e momentos de desespero. Cada
pessoa com a qual eu conversava parecia desconfiar de algo
escondido. Na verdade, era a peruca sintética, mas estava à vista.
Senti-me falsa, enganadora. A sensação não foi boa; quase tirei a
peruca na frente de todos.
Fui embora mais cedo, buscando um lugar para me esconder.
Fui, de fato, procurar uma mulher especializada em perucas com
cabelos humanos. Lá, recebi tão bom tratamento, como se fosse
velha conhecida, que me senti muito melhor. Podia ficar sem
peruca, com peruca, tudo natural. Ela trazia os modelos e contava
as histórias das outras clientes, com o mesmo problema.
- Até meninas usam peruca, para ir ao colégio - ela disse, pois não
querem aparecer carecas na frente dos coleguinhas.
Imaginem isso, que tristeza!
A sociedade é cruel; acha que gente careca, quando não natural,
tem o sinal da morte e, no entanto, agora, eu entendo que é sinal de
tratamento, de luta, de esperança, de vida.
Mas não me senti bem, de novo, com a peruca de cabelos
humanos. Continuei a achar que estava enganando a todos, me
escondendo à toa. Esta sensação é horrível. Não tenho nada contra
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as pessoas que gostam de usá-las; respeito-as; só eu é que não me
senti bem.
Careca, de peruca, de lenço, sem nada, com tudo, vou enfrentar
tratamento, remédio, cirurgia. Vou em frente.
(18 de outubro de 2005)
Começou o 2º ciclo da quimioterapia. Fiz exames de sangue e
outros. Peguei os resultados, mas não entendi as diferenças, em
comparação com os anteriores. Só poderia entender na hora em
que o médico explicasse, claro!
Da conversa, aprendi mais ou menos o que a quimioterapia faz com
o nosso organismo. Além de matar as células cancerosas, mata
também algumas células boas, como, por exemplo, as capilares.
Por isso o cabelo cai. Por outro lado, pode atacar células do fígado
e de outros órgãos, daí a importância de se manter uma boa
alimentação, para não virem a ocorrer anemia, complicações renais,
cardíacas, ósseas etc.
Sérgio (18 de outubro de 2005)
Quem atendeu a Cleide foi um médico com larga experiência no
trato da doença. Conversou longamente conosco, reforçando a
idéia de que a cura está mais na cabeça do paciente. Ele tem uma
visão espiritual de tudo. Mesmo eventualmente contestada, sua
opinião é humanística, carinhosa, estimulante.
Interessante também foi outra informação: - Em décadas assistindo
a pessoas acometidas pelo câncer, vi muitos maridos abandonarem
suas mulheres doentes, mas nunca vi uma mulher abandonar um
companheiro doente.
As mulheres diriam que isso é fruto de uma sociedade machista. Eu
acho fruto de uma sociedade ignorante, já que os homens são
educados por mulheres.
Foi uma boa discussão. O mérito fica para a sensibilidade feminina,
mas a culpa vai para todos os valorizadores e valorizadoras das
vaidades humanas, do consumismo material, do hedonismo. Isso
por que permitem que seus anseios falsos sobrepujem a
fraternidade, principalmente no caso de um companheiro, homem
ou mulher, ferido em combate.
Cleide (19 de outubro de 2005)
15
Hoje de madrugada, eu senti mais fortes os efeitos da
quimioterapia.
Recebi a dose à tarde e, de noite, lá vieram a sensações
desagradáveis. Foi um período bastante incômodo, sem sossego e
com muita dor no estômago.
Passei o tempo me levantando, com muitas idas ao banheiro, e me
monitorando, para entender o que estava sentido, até culminar no
enjôo e nos vômitos.
Não fui trabalhar. Já havia pensado em faltar e, com os importunos
passados, não tive forças mesmo. Estou um pouco melhor, ainda
com dores pelo corpo. Creio ser elas resultantes da noite mal
dormida.
Cleide (8 de novembro 2005)
Neste terceiro e último ciclo anterior à cirurgia, tudo igual, sem
alterações.
A médica me encaminhou de volta ao mastologista, para
marcarmos a cirurgia. Só poderá ser feita aos vinte e um dias
depois desta aplicação. Porém, para minha decepção, o médico
pediu mais um ciclo de quimioterapia. Fiquei decepcionada; não
estava preparada para essa notícia.
Vá lá; vou enfrentar. Eu prometi; vou em frente.
(29 de novembro 2005)
Agora, sim, foi o último ciclo.
Preparei meu espírito para mais uma semana de enjôos, noites mal
dormidas, porém a perspectiva da cirurgia me deixou esperançosa
de que seria um tempo mais ameno.
Engano meu, foi a pior semana de todos os ciclos. Tive problemas
sérios com a medicação destinada a amenizar os enjôos.
Dramin - nunca mais esqueço o nome desse remédio; não o tomo
por nada. Pode ser bom para outros organismos, mas não foi para o
meu. Atacou-me severamente o estômago; me dava sono. Quando
acordava, voltava tudo de ruim em dobro e, pior, passei quatro dias
sem comer, terminando a semana internada.
Fui vítima de um desmaio, ou de coisa parecida com uma
convulsão, sei lá o quê! Fiquei com os braços e pernas dormentes;
e tortos, segundo minha família. Não me lembro de nada! Fui para o
hospital, tomei alimentação intravenosa, pois, via oral, não parava
nada mesmo.
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O atendimento dos médicos da clínica de oncologia (CEON), mais
uma vez, foi providencial.
De volta para casa, eu só queria saber o que mais vinha pela frente
e se eu o suportaria.
Sérgio (2 de dezembro de 2005)
As conseqüências das três primeiras sessões de quimioterapia, a
cada vinte e um dias, foram típicas: dores generalizadas,
dificuldades em se alimentar, devido aos fortíssimos enjôos, e
grande variação da temperatura do corpo. Às vezes, ela sentia
muito frio, mesmo com temperatura ambiente amena. Ou forte
calor, quando precisava ligar o ventilador diretamente sobre o
corpo. Essas condições físicas precárias duravam por volta de três
dias.
Na quarta sessão, o quadro parecia ser o mesmo, com a agravante
de o corpo já estar mais debilitado. Por outro lado, os exames
mostravam uma regressão rápida do tumor.
No quarto dia, após a quarta sessão, ela havia conseguido comer
um pratinho de canjica, de manhã, e tudo indicava que o bem-estar
voltaria.
Mas, ao chegarmos em casa, na hora do almoço, nós a
encontramos amparada pela Tia Rosa, com as mãos dentro do
prato de um caldo de feijão, olhos abertos e parados, sem esboçar
qualquer reação fisionômica, o que me pareceu um quadro de
derrame cerebral, indevidamente por mim classificado como sendo
uma convulsão.
Enquanto minha filha esquentava suas mãos, com álcool, pois
estavam excessivamente contraídas, meu filho foi ao andar de
baixo, buscar socorro no apartamento de um vizinho, médico – que
não estava naquele momento. Eu liguei para a médica e fui
aconselhado a não fazer nada, exceto levá-la urgentemente para o
hospital.
Nós a colocamos no carro e eu saí, dirigindo em disparada,
buscando o hospital, o único que eu me lembrava dispor de
atendimento pelo nosso convênio. No banco de trás, minha filha
amparava a mãe desmaiada, sem cabelos, sem peruca, sem lenço.
Portanto, era um quadro típico de emergência.
Na via expressa, o eixo monumental de Brasília, eu tentava abrir
espaço entre os carros, com o “pisca-alerta” e os faróis ligados,
buzinando, dando sinais de luz, pedindo preferência.
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Entre centenas ou milhares de veículos, uma dezena permitiu que
os ultrapassássemos.
A maioria olhava para o carro, olhava para o banco de trás,
atestando a cena típica de emergência, e continuava dirigindo ou
falando ao telefone celular, como se não lhe interessasse atender
ao meu apelo.
Alguns outros forçavam a velocidade, para impedir nossa passagem
à sua frente, como se estivéssemos tentando lhes tirar o direito de
seguir seu rumo. O quadro de urgência não os sensibilizava em
nada.
Depois, comentando o episódio com os amigos, alguns
consideraram que a nossa Humanidade está perdendo o amor ao
próximo.
Eu considerei diferente. Pelas quantidades, acho que o normal é o
homem ser egoísta, individualista, materialista, mesquinho. As
pessoas que deram preferência, essas, sim, são seres
desenvolvidos espiritualmente, evoluídos na escala do
aprimoramento humano, anjos que pensam ser gente.
Cleide (6 de dezembro de 2005)
Ao visitar meu mastologista, para marcar em definitivo o dia da
cirurgia, mais uma decepção!
O procedimento deveria ser radical, devido ao tamanho do tumor
inicial, removendo-se acima de quatro centímetros de raio, para não
ficar nenhum tecido mamário contaminado. O planejamento médico,
achei realmente radical, mas a decisão foi minha:
- Tire tudo que for necessário, para eu me livrar deste mal - foi
assim que pensei e falei. Vamos em frente, cheguei até aqui e não
vou desistir agora.
A cirurgia foi marcada para 20 de dezembro de 2005.
Sérgio (6 de dezembro de 2005)
Voltamos ao mastologista, para saber do dia e forma da
intervenção.
Eu guardava uma esperança de que a cirurgia fosse mais leve,
apenas uma punção mais demorada, já que os tumores haviam
regredido muito. Já não eram mais percebidos pelo tato.
O médico confirmou a retração, mas disse não poder agir de forma
muito conservadora. Disse que retiraria boa parte da mama,
inclusive a auréola. Colocou-nos em uma dificuldade, quando
perguntou se queríamos assumir a responsabilidade de deixar a
18
auréola, pois havia o risco de uma reincidência. Questionei se,
devido à pequena distância do tumor à superfície, havia risco.
Ele confirmou que havia e não era pequeno, talvez uns trinta por
cento. E que ele deveria seguir o padrão que assim recomendava.
Oras! Então, por que perguntou?
Minha preocupação era de que essa parte fosse importante para a
auto-estima de minha esposa. Contudo, para o meu espanto, ela
decidiu concordar com o médico, demonstrando calma e segurança.
- Corta tudo o que tiver de ser cortado, Doutor!
Naturalmente, acompanhei-a em sua decisão, com palavras de
otimismo.
Acho que eu esperava pela sua tristeza e necessidade de apoio.
Como não veio, pela primeira vez, eu me desestruturei
psicologicamente.
Ela não percebeu e eu guardei o sentimento só para mim, um misto
de revolta e pena, por uns dois dias, até me reequilibrar
emocionalmente.
(20 de dezembro de 2005)
Teor de mensagem eletrônica que passei pela Internet:
Boletim Médico 1
Irmãos, Sobrinhos, Primos, Cunhados, Amigos, Colegas:
A Cleide fez a mastectomia hoje de manhã, das 8h às 12h, e correu
tudo bem.
A partir disso, ela foi para a UTI, por medida de segurança, e deve
ficar lá até amanhã de manhã, por volta de 10h.
O médico esqueceu de ir ao quarto me avisar que havia terminado
a operação! Pode? Se minha cunhada não fosse até a porta da UTI,
sem querer, eu estaria lá até agora! Quando lhe telefonei, ele disse
que correu tudo bem, de acordo com o planejado, mas não entrou
em detalhes.
Estive por alguns minutos com ela. Estava meio acordada, só
reclamando de um pouquinho de dores no braço, mas tranqüila.
Acredito que o sucesso de tudo deveu-se, além da habilidade e
competência dos médicos, principalmente, às orações, torcidas,
palavras de esperança de todos vocês.
Acho que até ouvi uma voz superior dizendo: - Filho, desce da cruz
e vai lá cuidar dessa Baixinha, que a pressão política aqui está
terrível.
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Abraços e beijos fraternais
Sérgio
(21 de dezembro de 2005)
Boletim Médico 2
Irmãos, Sobrinhos, Primos, Cunhados, Amigos, Colegas:
A Cleide já está no apartamento do hospital. Ficou sabendo das
manifestações carinhosas e pediu para fazer um agradecimento
geral a todos.
Depois, ela quer agradecer, um a um, todos os votos de pronto
restabelecimento e todas as orações.
Quer também agradecer e retribuir os votos de Feliz Natal e Feliz
2006.
Hoje, ela não pôde receber visitas, pois não conseguiu dormir
direito na noite passada, quando estava na Unidade de Terapia
Intensiva, e o médico recomendou que ela descansasse.
Ela me contou que a Unidade era muito barulhenta e movimentada,
como eu pude constatar, pois o hospital deixa muito a desejar em
diversos quesitos. O médico o havia recomendado, por entender
que lá estava a melhor e mais moderna UTI da cidade!
Entre outros problemas, o que a incomodou bastante foram as
reclamações de um velho e de seus acompanhantes, que não se
conformavam pelo fato de - ou no centro cirúrgico ou na UTI - terem
sumido com a dentadura dele.
E haja gente e barulho para procurar a perereca do velho!
Abraços e beijos fraternais
Sérgio
(22 de dezembro de 2005)
No pós-operatório, dolorido, nós dois sozinhos no quarto, ela olhou
para mim e lamentou: - Diz para mim que isso não está
acontecendo, que é um sonho ruim e que eu vou acordar.
Eu, como disse um amigo, poderia ser um ótimo ator, de tão
mentiroso, falei com voz firme: - Calma, não é sonho, mas vai
passar e vamos ter um Natal de alegria e renascimento.
Por dentro, eu era um caco só!
20
(23 de dezembro de 2005)
Boletim Médico 3
Irmãos, Sobrinhos, Primos, Cunhados, Amigos, Colegas.
A Cleide já está em casa.
Após os exames, o médico classificou seu estado como “muito
bom” e resolveu lhe dar alta.
Eu não esperava e cheguei a assustar-me. Quase que ela sai e eu
fico lá!
Agora, o nosso Natal vai ser igual ao que desejamos a todos vocês:
em paz e com alegria.
Abraços e beijos fraternais
Sérgio
Cleide (8 de janeiro de 2006)
Hoje, eu me lembrei do dia da cirurgia. Fui internada às 6:30h da
manhã.
É uma história geradora de uma carta, escrita pelo meu marido, ao
hospital e à administração do nosso convênio, em razão de vários
dissabores que tivemos, quanto à parte administrativa do meu
atendimento. Até hoje, não nos responderam.
Da parte de meus médicos, tudo certo, a cirurgia correu como
previsto. Fiz a mastectomia radical, com retirada dos linfonodos do
lado do braço direito (eles servem para proteger ao braço).
Mas também já havia decidido que faria a reconstituição da mama,
no mesmo dia da cirurgia, isso porque me lembrei de uma carta
deixada pela minha mãe, pouco antes de morrer, dizendo de sua
dor maior, a de ter sido mutilada. Eu não queria ter este sentimento!
O que aconteceu foi uma abdominalplastia, com retirada de
músculo do abdome e reconstituição da mama, sem o mamilo, pois
este só pode ser refeito após um ano da cirurgia. Assim, devo ter
continuidade do tratamento, bem como, talvez, radioterapia, por
conselho do cirurgião plástico, o que compreendi. No momento, eu
não estou nem um pouco preocupada com a parte estética, o que
me interessa é a minha vida ao lado do meu marido e dos meus
filhos. Aliás, esta parte foi bastante compreendida pelo meu marido.
Ele demonstra, o tempo todo, uma simplicidade e naturalidade
diante do resultado estético. Assim, a minha imagem não me
incomoda nem um pouco. Estou aliviada. Isso só me ajuda e me dá
mais força ainda.
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A recuperação foi difícil, mais do abdome do que da mama, mas,
como disse no início, sou obediente, sigo todas as orientações; não
tem por que não dar certo.
A agonia agora é aguardar o resultado da patologia do material
cirúrgico, pois dele depende o restante do meu tratamento.
CARTA À OUVIDORIA DO HOSPITAL
(Omitimos o nome desta Casa de Saúde, nestas notas, pois já se
passou bom tempo e parte dos problemas deve ter sido resolvida.
Ademais, não queremos prejudicar ninguém.)
No dia 20 de dezembro de 2005, minha esposa foi internada nesse
Hospital, para se submeter a uma mastectomia.
Já na chegada, por falta de orientação visual na frente do hospital,
entramos pelo Setor de Pronto-socorro. Era 6h e 30m, o horário
marcado pelo médico. A atendente informou que a internação só
poderia ser feita a partir das 7h, na portaria central.
Porém, logo depois, complementou que, devido à portaria central
estar fechada, a internação poderia ser feita por lá mesmo. Então,
para que a consideração anterior?
Isso me deu uma impressão de desorganização, mas pensei que,
talvez, a atendente estivesse apenas sonolenta ou em início de
emprego.
No apartamento, não havia água para beber, nem bebedouro nos
corredores. Recorri à atendente, que me informou ter eu mesmo
que ir buscar no setor de hotelaria. Preferi esquecer a minha sede.
Fiquei no quarto, aguardando o final da cirurgia, estranhando o fato
de, em uma hora, a luz do banheiro do apartamento acender; outra
hora, não. Nova consulta à atendente, a qual me recomendou pedir
o conserto à área de manutenção, como se eu fosse velho
conhecedor do dia-a-dia do hospital. Diante de minha pergunta
sobre qual razão a levava a ocupar aquele posto, resolveu ela
mesma ligar para o setor responsável.
Devido à demora da cirurgia, quase quatro horas, minha cunhada
foi averiguar e descobriu que a Cleide já estava na Unidade de
Terapia Intensiva - UTI, no pós–operatório, sem que ninguém
houvesse nos avisado. Liguei para o médico, que não foi me avisar
do desfecho da intervenção, pois, afirmou, não sabia em qual
apartamento nós estávamos.
Sabedores do horário permitido para visitar pacientes na UTI, minha
cunhada e eu resolvemos nos alimentar em alguma lanchonete
próxima. Na saída, um vigilante nos abordou, com rudeza, pois
22
estávamos sem o crachá que permitia a permanência no recinto do
hospital. Na entrada do pronto-socorro, não haviam nos fornecido.
Voltando à UTI, esperamos o horário correto para entrar, deduzindo
que deveríamos lavar a mão e vestir um jaleco, para diminuir o risco
de contaminação dos pacientes internados.
Entretanto, pessoas sem vestimenta adequada, e até portando
caixas de papelão sujas, adentraram o ambiente. Quando
entramos, notamos que o silêncio no corredor era maior do que
dentro da UTI, onde havia pessoas estranhas. Não apenas
acompanhantes temporários e profissionais. Ainda no recinto da
UTI, deixei mais uma vez o número do meu telefone celular e o da
minha residência (que inclusive consta do catálogo telefônico), no
prontuário de minha esposa, anotado pelo médico, de próprio
punho, sob as minhas vistas. Claro, já havia deixado tais números
na entrada da UTI, também, e nos papéis do convênio.
Minha preocupação acerca disso era a de terem a necessidade de
nos informar, no dia seguinte, por volta das 10h, da remoção de
minha esposa para o quarto, quando deveríamos estar presentes.
Às 9h e 30m do dia seguinte, eu já estava na portaria do hospital,
por uma questão de zelo. Como demorasse a ser chamado, por três
vezes, me dirigi ao porteiro, pedi que ligasse na UTI, para saber a
razão da demora, e avisei, eu mesmo, por duas vezes, que
estávamos aguardando sermos chamados, ali no saguão, com o
telefone celular ligado, naturalmente.
Qual não foi a minha surpresa quando, ao meio-dia, minha irmã liga
de sua casa, dizendo que o pessoal da UTI estava me procurando
desesperadamente, pois meus telefones não atendiam.
Também fiquei sabendo, por duas pessoas diferentes, que, durante
a intervenção, uma funcionária da administração do Hospital tentou
interromper a cirurgia, alegando que esta não estava autorizada.
Obviamente, estava, pois eu mesmo havia tirado e entregue as
guias do convênio, com todas as perícias e conferências
necessárias. Ademais, para confirmação, posteriormente, na alta da
paciente, saímos do Hospital com a devida autorização.
Dizem que, nesse momento - o da cirurgia interrompida, os médicos
chegaram a rir da funcionária, em razão da impossibilidade de parar
no meio o procedimento.
No mesmo dia, o médico me falou que iria proibir as visitas à minha
esposa, já encaminhada para o apartamento, pois ela não havia
conseguido dormir na noite anterior. Achei que tivesse sido por
causa dos incômodos físicos. Entretanto, ela me falou que foi
devido ao barulho no local. Entre outros, devido a uma balbúrdia
causada por um senhor e seus familiares, reclamando muito, pelo
23
fato de terem perdido, no centro cirúrgico ou na própria UTI, a
dentadura do paciente.
Seria cômico, se não fosse sério!
Na chegada de minha esposa ao quarto, entrou uma outra
funcionária e, sem mesmo cumprimentar ou se apresentar, colocou
a mão na cintura, balançou os quadris e perguntou, com ar
professoral: - Vocês já arranjaram doadores de sangue. É!!! Precisa
doar, viu? Tem que repor, viu?
Eu perguntei aonde deveríamos nos dirigir? Em que período do dia?
A quem nos reportar? Como proceder para que soubessem ser uma
doação relativa ao sangue usado pela minha esposa?
Ela nada respondeu.
Pensei que todo o material, inclusive o sangue necessário, estava
coberto pelo meu convênio.
Entretanto, não considero sangue uma mercadoria e todos devem
doar, independentemente de vantagens. Mas se isso é obrigatório
ou mesmo convencional, o Hospital deve fornecer, pelo menos, as
orientações sobre como proceder, pois ninguém é adivinho.
Doadores não faltam.
Pior, saímos sem doar nada, o que considerei uma dívida perante a
Humanidade e, por isso, me dirigi ao Hemocentro do Hospital
(descobrimos depois o local, por nossa iniciativa) e fizemos a tal
doação, eu e minha filha, além de um casal amigo nosso que
compareceu dias depois.
No mesmo dia em que a Cleide chegou ao quarto, pouco após as
19 horas, apareceu uma funcionária da administração fazendo
barulho e perguntando se ali era o 411, pois já havia sido dada a
alta hospitalar ao paciente. (Como esta poderia ter sido dada, se a
paciente ainda estava com drenos e sondas? Adicionalmente, seu
médico ainda não havia feito a visita pós-cirúrgica).
Quando minha cunhada olhou o papel, o qual estava nas mãos da
funcionária, e leu o nome lá escrito, alertou-a de que a paciente não
se chamava Antonio e, portanto, havia algo errado. A enfermeira se
retirou sem falar nada, nem pedir desculpas.
Mesmo com a recomendação de não receber visitas, minha esposa
recebeu três pessoas, autorizadas pela portaria, após as 20hs -
amigos desconhecedores da proibição.
Tivemos muitos outros dissabores, até a alta de minha esposa,
devido à falta de educação de alguns funcionários, em especial dos
vigilantes e atendentes, problemas estes causados certamente pela
generalizada falta de treinamento.
Um fato estarrecedor foi observar alguns hematomas no corpo de
minha esposa, que nada tinham a ver com a cirurgia, resultados de
24
transporte indevido. Em um caso desses, segundo ela, que estava
consciente no momento, um enfermeiro chegou a lhe pedir
desculpas, por ter lhe machucado.
Serviço de saúde é coisa para profissional, meu Deus!
Também causou-nos dificuldades a falta de uma programação
visual informativa no interior do edifício. Por estar acontecendo uma
reforma no prédio, relevamos. Entretanto, essa mesma reforma nos
causou preocupação, quando pedimos água, mais uma vez, e nos
disseram que a demora na entrega se devia ao funcionamento de
apenas um elevador, naquela ocasião, e que as escadas estavam
bloqueadas. Se souber que as escadas de um estabelecimento
estão fechadas, o Corpo de Bombeiros o interdita imediatamente, já
que isso coloca em risco a vida das pessoas, o que é justamente o
contrário do papel de um hospital.
A par de aspectos positivos, como o bom profissionalismo de
algumas enfermeiras, casos da Sra. Cleine e das nutricionistas
(uma delas foi pedir desculpas pelo fato de o café da manhã ter
vindo com queijo branco rançoso), além da Sra. Marcilene e da Sra.
Juvênia (atendentes da UTI, que foram muito gentis e atenciosas,
uma durante a tarde do dia 21 e a outra na manhã do dia 22),
resolvi escrever a essa Ouvidoria, no sentido de colaborar com a
melhora da prestação de serviços dessa Empresa, concorrendo
assim para melhorar também o Sistema de Saúde, no Brasil.
Deste texto, que encaminho também ao Convênio do qual sou
associado, tudo em caráter reservado, solicito que me confirmem o
recebimento, pois assim não julgarei necessário torná-lo público.
Atenciosamente
Sérgio Antunes de Freitas
Sérgio (7 de janeiro de 2006)
Se há uma coisa que me causa um leve temor é agulha de injeção.
Para falar a verdade, não é tão leve assim.
Deve ser conseqüência do tipo de criação, na época em que eu era
menino, quando costumávamos ouvir: - Menino, sai da chuva,
senão vai ficar doente e tomar injeção.
A hipótese, além de parecer um castigo, ameaçava com uma ação
invasiva e dolorida.
Na criação de meus filhos, fiz o contrário. Sempre mostrei ser a
injeção benéfica e pouco dorida, estimulando, festejando e
premiando as crianças, nos dias de vacinação.
Por conta disso, minha filha zomba de mim: - Seja macho, homem!
Onde já se viu ter medo de uma agulhinha de nada.
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Eu morro de rir, por dentro, mas reforço sua auto-confiança,
confirmando minha aversão às ampolas.
Como disse na carta ao hospital, eu estava incomodado com o fato
de não ter doado sangue para repor o estoque do hospital. Eram
necessários três doadores. Pedi a um casal de amigos, Jairo e
Iracema, doadores voluntários tradicionais, que colaborassem para
complementar a tríade.
Eu seria o terceiro. Minha filha, no entanto, pelo seu espírito
solidário, aproveitou a oportunidade: - Vamos lá, medroso. Eu
também vou doar com você.
Fomos juntos. Doamos sangue juntos. Eu, orgulhoso da iniciativa
de minha rebenta, nunca mais esquecerei esse dia.
Claro, principalmente para um sujeito com trauma de agulha, há um
pequeno desconforto, uma tensão prévia, uma expectativa na
entrada do objeto contundente, mas tudo suportável.
Ademais, depois de feita a coleta, a sensação de dever cumprido,
talvez de ter ajudado na cura ou salvação de alguém, traz um alívio
que supera definitivamente qualquer aflição psicológica.
Chegando em casa, a Marina não perdeu a oportunidade: - Mamãe,
não dói nada, mas este aqui quase morreu de medo.
Complementei, para manter a piada: - Também, pudera, enfiaram
um tubo de PVC de duas polegadas na minha artéria. Quer o quê?
Que eu ria?
Aprendi o caminho e pretendo doar sangue regularmente. A
vantagem espiritual é imensurável.
Sérgio (8 de janeiro de 2006)
Há vários ditados populares para corroborar que os fatos
complicadores da vida nunca acontecem isoladamente.
Devido ao estado de catatonia em que ficou a Cleide, no episódio
de seu desmaio, no dia 2 de dezembro, acharam por bem deixá-la
internada no hospital por mais uma noite.
Na manhã seguinte, quando eu saía do hospital, para rapidamente
fazer umas compras na feira, o veículo de uma loja de banho e tosa
de animais bateu na traseira do meu carro, complicando mais minha
vida nos dias seguintes. Fui inicialmente a uma oficina autorizada,
atrás do respectivo conserto (o que demandou tempo, em função da
agenda da oficina, vistorias de seguros e espera do documento de
aprovação), que acabou não acontecendo, por algumas semanas.
Perdi aquele tempo todo e acabei levando o carro numa oficina
particular.
26
Coincidentemente também, nos meses antecedentes, meu filho
quebrou a mão, por duas vezes, um dia antes de cada
quimioterapia da mãe. E, antes de uma terceira, voltamos ao
médico para troca de tala, pois havia muita dor no local.
Quando aparecia alguma novidade dessas, eu até ria, diante do
ineditismo.
A “Lei de Murphy” atuou em toda a sua plenitude! Para quem não
sabe, o enunciado dessa lei pessimista é: “Se existe um mínimo de
possibilidade de alguma coisa dar errado, vai dar errado!”
O acidente do carro, por exemplo, foi estranho.
O trânsito estava lento e uma fila de carros descia em direção a um
sinal fechado, em rua de pouca declividade.
O carro da frente freou suavemente e eu freei atrás.
De repente, senti aquele chacoalho por detrás, junto com o barulho
típico de choque automobilístico.
Desci do carro e notei, dentro do carro que colidira na traseira do
meu, um rapaz com os braços apoiados na direção e a cabeça
sobre eles. O vidro do seu pára-brisa estava trincado, o que me
deixou preocupado quanto ao estado físico do motorista.
Ajudei-o a sair do veículo e a sentar-se na grama, ao lado da pista.
Depois de confirmar não ser necessário chamar o socorro médico,
ele telefonou para o seu patrão, a fim de que este comparecesse ao
local, para decidir quais as medidas a serem tomadas.
Enquanto o tal patrão não chegava, perguntei ao garoto condutor: -
Como é que você conseguiu bater em linha reta, numa velocidade
relativamente baixa e num local com pouco movimento?
Ele explicou: - Sabe esse cachorrinho aí atrás do banco?
Olhei e vi um desses cachorrinhos de madame, com fitinhas nas
orelhas, recém banhado e tosado, na carroceria do veículo.
Ele continuou: - Toda vez que busco ou levo esse cachorro, ele faz
cocô no chão do carro. É um cheiro horrível; dá uma trabalheira
para limpar e, justamente hoje, quando preciso sair mais cedo do
trabalho, ele me aparece para ser entregue em casa!
Então, eu pensei que poderia evitar o problema, caso colocasse o
bichinho para fazer a sujeira fora do carro, no momento antes dela
acontecer.
- Eu olhava para a pista e olhava para o cachorro (aí, enquanto
descrevia o fato, o rapaz balançava os braços, virava a cabeça e
quase dançava, com voz nervosa e cantada) - Cagou, não cagou,
cagou, não cagou... De repente, o bicho foi tomando aquela posição
tradicional. Eu demorei um pouco mais o olhar, já lamentando não
haver tempo para evitar a sujeira. Quando voltei os olhos à frente...
já havia batido!
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Aí, fui eu quem não resisti e complementei: - Ele fez lá atrás e você
aqui na frente, né?
Depois, pensei: Coitado do cachorro! Devido ao susto da batida,
nunca mais faz no carro, nem em casa, nem no jardim, nem em
lugar nenhum!
Sérgio (17 de janeiro de 2006)
E a Lei de Murphy continuou.
No começo do ano, meu chefe propôs-me que o substituísse em
suas férias de uns quinze dias.
Em princípio, não quis aceitar a proposta, pois a área de
administração é muito estranha para a minha formação de arquiteto.
Entretanto, duas variáveis se impuseram. Seus substitutos
imediatos, por um acidente de entendimento, haviam marcado as
férias para o mesmo período.
E ele, que havia se dedicado o ano todo ao trabalho, como eu
nunca havia visto nenhum outro assim fazer, precisava de um
descanso. Era visível.
Por uma questão mais humanística e de lealdade, aceitei o desafio.
Fiquei preparado para, nessa quinzena, viver exclusivamente para o
trabalho e para a família. Chegar cedo, não deixa nada atrasar,
cobrar todas as tarefas de seus subordinados nem deixar nenhuma
sobra de problema para ele.
E foi assim, até quando, no meio do período, saindo de meu
apartamento, pouco antes da 14 horas, resolvi evitar o elevador e
descer pelas escadas. Moro no segundo andar, então, economizo
eletricidade para o condomínio e, adicionalmente, faço exercícios, o
que já virou meu costume.
Mão no corrimão da escada, desci até o primeiro patamar.
Firmei um pé na base da escadaria e, quando lá coloquei o outro,
os dois subiram, como se eu tivesse levado um golpe de capoeira.
No andar de cima, uma máquina de lavar roupas havia vazado. A
empregada doméstica daquele apartamento limpara a área interna,
mas se esquecera de secar a área externa ou mesmo de avisar os
porteiros do edifício.
A água, cheia de sabão, amaciantes e outros, desceu e formou uma
poça no piso encerado.
Em resumo, escorreguei e minha cabeça foi a primeira que recebeu
o impacto, como um pára-choque.
Escutei o barulho de chaves batendo no chão e pensei que fossem
cacos da caixa craniana.
28
A dor foi tão forte, que eu fiquei anestesiado e certo de um fatal
traumatismo na caixa óssea.
A segunda sensação foi a da calça molhada na bunda. Pensei: -
Coisa mais esquisita é a morte. Nunca imaginei que fosse assim!
Percebi ainda ter forças para voltar ao apartamento, mas consciente
de que deveria agir com calma, pois só minha filha, com carteira de
motorista obtida há poucos dias, tinha condições de me levar ao
hospital.
Abri a porta, andando curvado, tal qual um troglodita com bico de
papagaio na coluna, e falei com muita calma: - Gente! Acabei de
levar um tombo e estou com a cabeça rachada, mas está tudo bem!
Preciso apenas que me levem, sem correria, ao hospital.
Felizmente, a Cleide me informou que o cérebro não estava à
mostra. Apenas um corte, que sangrava bastante. Foi um alívio!
A Rosa (Santa Rosa!) veio com gelo e o aplicou no local.
Fomos ao hospital, levei seis pontos e fiquei vinte e quatro horas
em observação.
Como, nessas vinte e quatro horas, não lati, nem joguei pedra no
trem, fui liberado, com a percepção de que o acidente foi só um
susto, mas dos grandes.
Sérgio (10 de janeiro de 2006)
Ontem, fomos ao médico, levar o resultado da biópsia da parte
mamária retirada na cirurgia.
O resultado foi, do ponto de vista clínico, o esperado. Eram mesmo
uns carcinomas ductais infiltrantes, de diversos tamanhos.
Entretanto, com as margens limpas. Bom sinal!
A médica, em função dos resultados, pediu mais um exame do
material (que vou pegar amanhã e enviar a São Paulo), para saber
sobre a agressividade do “bicho”. A depender do resultado provável,
não haverá prescrição de mais quimioterapias, nem de
radioterapias.
Já partiremos para o acompanhamento bimestral.
A Cleide está radiante e parece até ter se recuperado mais
rapidamente, depois desta boa notícia.
Cleide (20 de janeiro 2006)
Baseado no resultado emitido pelo Setor de Patologia, ficou
decidido que serão efetuados mais quatro ciclos de quimioterapia.
Ai, ai, ai! Vou em frente mais uma vez.
29
Segundo a médica, o tratamento está chegando ao fim, mas são
necessários estes ciclos, para não restar nenhuma dúvida.
Consultamos outros médicos amigos e parentes, para que não
tivéssemos dúvidas. Todos, entendidos da matéria, foram unânimes
em concordar com essa decisão.
Minha médica, Dra. Fabiane, me informou das reações frente a esta
nova medicação - menos enjôos, menos quedas de cabelo, porém
dormência nas mãos e pés.
Confesso, mais uma vez, quase desisti. Mas, diante de meus filhos
e de todo o apoio e amor de meu marido, como ficar derrotada?
Má notícia, de novo. Terei que fazer radioterapia também.
Não dá para evitar. Faz parte do jogo. Pesquisamos, conversamos,
buscamos todas as informações necessárias, não tem outra
maneira, tem que fazer.
Brinquei, disse que ia fugir, não queria fazer mais nada, pois
reapareceu o cansaço, a depressão, o medo, mas é “só” isso
mesmo.
Vou fazer tudo, até o fim. A luta é muito mais longa; no mínimo,
cinco anos. Há os acompanhamentos a cada três meses; depois,
eles vão se espaçando mais. Vamos ver; tenho fé; só serão exames
para tirar todas as dúvidas. Eu já me considero curada.
No meio dessa trajetória toda, eu acabei desobedecendo ao meu
mastologista. Olhem só: logo eu que desde o início falei de minha
disciplina como paciente! Ele havia dito não querer que eu fizesse
fisioterapia, pois a clínicas existentes em Brasília não estavam
preparadas para acompanhar esse tipo de procedimento póscirúrgico.
Disse já ter tido problemas com pacientes mal orientados
nos exercícios fisioterápicos, causadores de problemas
complicadores, após a cirurgia. Eu compreendi perfeitamente. Ele
até me ensinou uns exercícios para fazer sozinha em casa, com
cuidado e aos poucos, mas não consegui. Senti uma limitação de
movimentos muito grande no braço direito, causadora de muita
irritação para mim, pois não podia me vestir, tomar banho, enfim,
fazer as coisas básicas. Isso acaba com a confiança de qualquer
um!
Comecei a pesquisar, na Internet, as conseqüências da retirada dos
linfonodos.
Como eu deveria me preparar para enfrentar essa limitação? Como
voltar a ter uma vida quase normal, tendo um braço que não
poderia ser machucado, picado de mosquitos ou molestado de
nenhuma forma?
Nem dirigir carro era permitido, na idéia do médico. Eu deveria, no
seu modo de ver, esperar uns seis meses para isso, no mínimo.
30
Nas minhas pesquisas, descobri que fisioterapia e drenagem
linfática apresentavam bons resultados para pacientes em pósoperatórios
de mastectomia radical. Comecei a buscar, em Brasília,
uma clínica especializada. Parecia não ter ninguém mesmo, até
quando, conversando com o cirurgião plástico, fui informada da
existência de uma clínica, com fisioterapeutas especializadas no
meu caso. Foi medida providencial!
Lá nesta clínica, chamada FISIOTERAPIA EM ONCOLOGIA E
DISTÚRBIOS LINFÁTICOS - FISIOCENTRO, os profissionais
haviam feito cursos de especialização no Instituto do Câncer, em
São Paulo, e seu trabalho é todo voltado para pacientes com pósoperatório
de quaisquer tipos, inclusive de mastectomia. A
drenagem linfática é feita para evitar edemas, no meu caso, dos
braços, em razão da retirada dos linfonodos.
Comecei a fazer as terapias. Com dez seções, tive o resultado
esperado. A limitação do braço começou a ceder e, com quinze
dias, comecei a dirigir, sem sentir nada no braço, sem inchaço, nem
dores. Valeu a pena e está valendo!
Depois disso, conversando com a radioterapeuta, também médica,
ela concordou ser este, no nosso caso, repito, um bom exercício
para evitarmos os inchaços do braço. Digo nosso porque ela
também é ex-paciente de câncer de mama e isso dá mais força
para a gente, pois tratar com uma médica conhecedora dos dois
lados, a parte médica e a da paciente, é mais seguro e confiável.
As minhas fisioterapeutas são maravilhosas, experientes, sem
nenhuma afetação e muito competentes em seus trabalhos. São
verdadeiramente profissionais.
Minha melhora é visível. Quando estiver fazendo radioterapia, terei
que continuar com o trabalho da fisioterapia, pois podem aparecer
algumas alterações de movimentos. Contudo, a médica garante: -
Nada como uma drenagem e uns exercícios para ficar tudo quase
normal novamente.
Cleide (31 de janeiro de 2006)
Já fiz o primeiro ciclo da segunda fase da quimioterapia, com Taxol
- este é o nome do remédio.
Foi bem melhor! Não tive enjôos, nem tonteiras, porém apareceu
uma reação da qual não fui prevenida: inflamação e dores horríveis
nas juntas, além de retenção de líquidos no organismo.
Que coisa chata! Eu tenho uma resistência bem grande para dores,
pois ainda não senti nada pior do que as minhas enxaquecas. Ainda
bem, elas me abandonaram desde o início do atual tratamento;
31
então, o saldo para sentir dor está positivo em minha conta; deu
para agüentar.
A dormência nos pés é constante; às vezes, tenho medo de andar e
cair.
A drenagem linfática também ajuda na parte da retenção de líquidos
e, assim, vou suportando e voltando aos poucos à vida normal.
Cleide (21 de fevereiro de 2006)
Já estou no segundo ciclo da segunda fase de quimioterapia.
Tudo igual à primeira, com as dores menos fortes nas juntas. A
médica, desta vez, fez uma medicação preventiva. Está tudo bem.
Apenas muita sede. Passo acordada grande parte da noite; no
entanto, nada que eu não tenha conseguido suportar.
A dormência nos pés e pontas dos dedos das mãos é constante;
não pararam nem um dia, desde o primeiro ciclo da segunda fase.
O cabelo voltou a cair, desta vez, com mais rapidez. Já tinha uns
três centímetros de cabelo crescido. Até já saía de casa, sem nada
na cabeça!
Pedi para minha irmã Ana raspar minha cabeça novamente, pois
não gosto daquela sensação de sentir os cabelos escorrendo pelo
corpo. É mesmo nojento!
Quando começamos a fazer o tratamento assim demorado,
passamos por vários consultórios médicos, laboratórios e, mais
intensamente, por várias salas de espera, durante muitas horas. Aí,
começamos a ver os outros lados da vida. Quantas pessoas
cruzaram no meu caminho, com histórias iguais à minha ou piores.
Ou menos piores, também. Naturalmente, o assunto sempre gira
em torno da doença - Onde é o seu problema? (Lá vem aquele
estigma de não falar a palavra câncer). Vêm as histórias do quando
começou, como ficou, se voltou.
Já ouvi casos de pessoas que elogiam os médicos, mas, ao mesmo
tempo, os culpam pelo retorno da doença; de outras pessoas que
estão revoltadas, por não estarem ainda curadas ou apenas por
terem estado doentes; também de pessoas maravilhosas, sempre
com uma palavra de afeto, de estimulo, para você continuar
lutando. Até mesmo aquelas que ficam caladas demonstram,
através do olhar, cumplicidade, indicando que é por aí: -
Continuemos firme, nós sairemos desta.
Já ouvi histórias em que o próprio paciente, quando tomou
conhecimento de sua doença, fugiu, se escondeu, não avisou a
família, não fez o tratamento, teve vergonha, deixou para depois,
achando precisar, primeiro, resolver outros problemas, menos
32
importantes e de soluções mais fáceis. E, quando se deu conta da
realidade, já era tarde!
Claro, é compreensível! Temos medo, covardia natural aos
humanos. Não somos super-heróis, nem tampouco deuses.
Se eu pudesse, gritaria, choraria, imploraria, pelo amor de seus
familiares, pelo amor que possam ter por si próprios, para eles irem
atrás de suas curas, para seguirem à risca as orientações médicas,
não pararem, lutarem! Tenham fé! Como eu já disse anteriormente,
o câncer não bate educadamente na porta de ninguém. Ele invade!
Contudo, existem armas para impedi-lo de se acomodar.
Eu ainda tenho muito, mas muito medo mesmo. Porém quero
continuar tentando, lutando até onde me for permitido. E, se der,
vou extrapolar esta permissão.
Sempre que me deparo com uma história triste, procuro deixar
minha impressão de que vamos vencer, mas a barreira do ser
humano revoltado é, em alguns casos, muito difícil de ultrapassar!
Nesses casos, eu paro, olho discretamente, faço uma pequena
oração e peço, a Deus, proteção à pessoa e luz à sua família, a fim
de que tenham forças e continuem apoiando-a. Assim, eu acredito
que começo a fazer um pouquinho daquilo a que me propus, ainda
que na intenção: doar-me aos que precisam.
Sérgio (26 de fevereiro de 2006)
Na sexta-feira, a Cleide pediu-me para levá-la à feira do Guará,
uma cidade-satélite de Brasília. É uma feira tradicional, onde estão
à venda roupas de todos os tipos e, muitas vezes, a preços bons.
Ficamos tratados que, no sábado de manhã, enquanto ela fosse
procurar e comprar as roupas, eu ficaria em um boteco, tomando
aquela cerveja de fim de semana.
E assim quase aconteceu.
No caminho, ela me confidenciou não estar se sentindo bem com
algumas peças de seu vestuário, devido à plástica ainda incompleta
de sua mama. Devido ao fato de uma delas estar ligeiramente
menos volumosa que a outra, algumas blusas deixavam
transparecer a assimetria.
Quando chegamos ao destino, ainda estava cedo para beber, no
meu relógio etílico, e resolvi acompanhá-la na investigação de
vitrines.
Ela foi me explicando: - Preciso de roupas confortáveis, que não
moldem o corpo, que não sejam longas, pois sou baixinha etc. etc.
etc.
33
Entrei no clima e perguntei: - Será que uma espécie de colete, de
brim ou assemelhado, não seria uma peça do tipo “coringa” para o
seu guarda-roupa? Em cor neutra, poderia se sobrepor a uma peça
confortável, mas que molda o busto. Uma alternativa interessante.
Complementei: - Já vi algumas brancas, bordadas, leves, se não
me engano.
Ela concordou e ensinou: - Essa peça se chama bolero. E
realmente pode ser uma alternativa.
Animei-me: - É verdade! Eu me lembro de minha mãe dizendo ter
feito um bolerinho para a primeira comunhão de minha irmã! Era
com rosas coloridas, como vi, e não me esqueço das figuras.
Então, saí perguntando nas bancas: - Por acaso, o Senhor tem um
bolerinho em tecido ou couro?
Ou: - Estamos procurando uma batinha, larga, em tecido leve, sem
costuras ...
De repente, chegamos a uma barraca onde havia muitas batas na
condição em que procurávamos. Feliz com o achado, apontei para
elas, chamando a atenção da Cleide: - Olha só, umas batinhas bem
do tipo que você quer. Por sinal, muito bonitas!
Ao lado do cabide de batas, estava uma adolescente de uns 17
anos e sua mãe, que ficaram me olhando de cima em baixo.
Em seguida, olhei para o alto e vi umas peças brancas, do jeito
imaginado para a Cleide e, tudo indicava, eram peças baratas. Era
muita sorte!
Apontei também para uma delas e disse para a vendedora (erro
meu, confesso!): - Amiga, desce aquele bolerinho branco, bordado,
que a gente quer ver!
A adolescente, sem saber que eu estava escutando, comentou com
a mãe: - O sonho de toda mulher é ter um amigo veado para ajudar
no guarda-roupas!
Foi aí que eu estanquei, desisti da empreitada e falei: - Cleide,
desculpa, mas eu vou tomar cerveja, que é coisa de homem.
Sérgio (13 de março de 2006)
Hoje, é o aniversário de nosso casamento, 24 anos.
Fiz uma poesia para ela. Quando mostrei, ela não gostou muito.
Depois, leu novamente e pediu para fazer parte do nosso pretenso
livro.
Dor no Peito
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Sei do seu sofrimento,
Seio seu, meu ungüento,
Privação que se lastima,
Reforço de fortitude,
Ausência que ninguém quer,
Lembrança de juventude,
Vai, lagarta menina,
Vem, borboleta mulher.
Do frio ou do arrepio,
Apontando para o céu,
Escravo do amor ou do cio,
Aguardando a boca do filho,
Como, de uma ave, o bico.
Sublime, fascinante, místico.
No canto do estribilho:
Leite doce, doce mel.
Interposto no caminho,
Carcinoma traiçoeiro,
Destruída natureza,
Covarde, egoísta, sozinho,
Plantando dor e torpeza,
Como um rico e falso posseiro.
Em busca de ouro e dinheiro,
Sedento por chão e riqueza.
Total mastectomia,
Morre o abjeto vilão.
Em luta insana e louca,
O veneno da tirania
Deixa orfandade de boca,
Deixa, vazias, carícias.
Portal do jardim das delícias
Cerrado por um portão.
Conselho que vem do céu,
Minha amazona aguerrida,
Vai-se o dedo, fica o anel,
Vai-se o peito, fica a vida.
Vai-se um pouco da alegria.
Sublime e lindo sorriso,
Isso é tudo o que eu preciso:
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Fica a sua companhia.
Cleide (14 de março de 2006)
Agora, foi o terceiro ciclo da segunda fase de quimioterapia. Sem
alterações. Reações iguais às anteriores. Dores, dormência nos
membros, inchaço e retenção de líquidos.
Tomei uma decisão. Já estou, há três meses, de licença médica e
não consigo mais ficar em casa.
Depois da fase crítica, pós-cirúrgica, sinto-me inútil, como uma
madame fútil dentro de casa, esperando que todos venham lhe
trazer as coisas nas mãos. Não, eu não sou assim, sempre
trabalhei, desde os 17 anos de idade. Por que, agora, com mais
experiência, vou ficar de braços cruzados?
Conversei com os médicos. A oncologista foi a favor da idéia de que
eu deva me exercitar, a radioterapeuta disse ser a melhor coisa que
eu poderia fazer, se estiver sentindo bem, e o mastologista ... Bem,
este é radical mesmo, porém muito cuidadoso. Ele só quer minha
volta ao trabalho em junho.
Serei desobediente mais uma vez. Decidi, volto a trabalhar no dia
20 de março, quando termina minha licença já homologada.
Sérgio (18 de março de 2006)
Às vezes, o humor é terapia:
Eu achei que a quimioterapia não faria mais estragos.
Ontem, sexta-feira, a Cleide resolveu dormir mais cedo, pois estava
sentindo dores nas pernas.
Fui junto, pelo cansaço da semana de trabalho e pela tensão de
mais uma quimioterapia.
Quando eu estava pegando no sono, ela gemeu baixinho: -
Aaaaaiii!
Perguntei: - Quer um analgésico?
- Não adianta. É aquela dor nas pernas – respondeu.
Pouco depois, sono meu reiniciado, ela gemeu novamente: -
Aaaaaiii!
Acordei e perguntei: - Quer tomar aquele remédio que a médica
recomendou?
- Já tomei. Deve fazer efeito logo mais.
Voltei ao sono profundo, quando ela gemeu mais uma vez: Aaaaaiii!
Acordando novamente, perguntei: - Quer que eu faça uma
massagem na sua perna com pomada de arnica?
36
- Não! O problema é quando me mexo, mas daqui a pouco a dor
passa. Não se incomode. Vai passar.
Concluí: - Então, pára de gemer, que isso está me dando um tesão
danado.
Valeu a brincadeira. Ela riu, relaxou e dormiu. Acordou sem dor.
Cleide (20 de março de 2006)
Que maravilha! Sinto-me renovada, voltei a trabalhar como eu
queria. Voltei com força total e tive, no ambiente de trabalho, uma
recepção maravilhosa por parte dos colegas. Chorei - claro, sou
chorona mesmo, devido à emoção refletidora de coleguismo, apoio,
afeto, carinho. Isso tudo transmite força para eu continuar minha
trajetória, ser obediente e fazer o tratamento proposto.
Valeu a pena voltar, mesmo sabendo que ainda tem um ciclo de
quimioterapia e vinte e oito seções de radioterapia pela frente!
(09 de abril de 2006)
Último ciclo de quimioterapia, que maravilha! Todos estão radiantes,
todos dizendo: - Que bom, é o ultimo, tudo acabou!
Porém, confesso, bateu um medo danado. Imaginem aquela
sensação de que, enquanto medicada, você está resguardada,
mas, depois, o que vai ser?
As reações foram um pouco mais fortes, porém cessaram. Tive que
ficar de licença por dez dias. Eu chamo esse período de clausura,
aquele para evitar contágios, aglomerações, como foi orientado no
início do tratamento.
Enfim, acabou.
Acabou, sim, a quimioterapia; agora vem a radioterapia.
Tenho a sorte de ter filhos, dois adolescentes maravilhosos. Não
me trazem problemas, nunca. Não é só agora com a doença, não!
Sempre foram assim, tranqüilos, caseiros, obedientes, amigos,
companheiros, presentes sempre.
Minha filha de 18 anos, para mim ainda meu bebê, ontem resolveu
desabafar. Depois de tantos meses, ela disse:
- Mãe, já ouvi muita gente falando que é com “porrada” que a gente
amadurece. Poderia ser diferente, mais leve, né? Mas é a pura
verdade. Nesse ano que passou, eu aprendi muita coisa, aprendi
com as minhas derrotas nos vestibulares, aprendi a ouvir mais as
pessoas e a, pelo menos, tentar entender o porquê erramos tanto.
Deixei de lado alguns preconceitos e até com a sua doença eu
aprendi...
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Não concluiu a frase, não precisava. Eu entendi e fiquei, ao menos,
aliviada. Nossa mensagem foi recebida, pensei.
Meu filho de 14 anos não fala muito sobre a minha doença. Nem
precisa, pois cada vez que me abraça, me beija, me olha, que
gostoso! É um bálsamo para o meu corpo e para o meu espírito.
Cleide (19 de abril de 2006)
Confirmado o tratamento proposto: vinte e oito aplicações diárias,
ou seja, vinte e oito dias seguidos de radioterapia, começando em
24 de abril.
Vamos ver o que me espera. Porém estamos confiantes.
Cleide (23 de abril de 2006)
Amanhã, dia 24 de abril, vou fazer a tomografia, como preparação
das aplicações da radioterapia. Agora, 21:36h, veio o medo, mais
do que anteriormente, mas pode ser por causa do desconhecido.
Surgiu o medo e, também, como o dia foi um pouco cansativo, se
aliou à incerteza.
Estou triste; tive mais uma crise de choro. Não deixei ninguém ver.
Passei o dia bastante nervosa, mas creio que ninguém aqui em
casa percebeu. Tentei esconder. Sei por que estou muito triste
mesmo, com vontade de parar, de ficar quietinha no meu canto,
sem ninguém me achar. Gostaria, neste exato momento, que o
tempo parasse, só para eu não ir amanhã àquele hospital. Gente
estranha, diferente, novo tratamento; hoje voltou um pouco daquela
depressão que tive no início de tudo isto.
No entanto, vejo meus filhos se preparando para o dia de amanhã,
arrumando os livros, vejo que a vida continua, não posso parar
agora, mesmo a contragosto. Vamos lá! Vou enfrentar o que ainda
vem pela frente.
Cleide (24 de abril de 2006)
Na realidade, a gente não sabe nada.
É tanta especulação, até o momento de passar pelo desconhecido.
Não fiz a tomografia, como achei que iria fazer. Ao contrário do que
me disseram, fui apresentada solenemente ao aparelho de
radioterapia, com direito a risos, depois de uma espera ansiosa em
uma sala onde a gente tira a roupa, coloca um roupão do hospital,
fica esperando e vendo, um a um, os pacientes irem ao encontro do
mesmo aparelho e voltando para se destrocar.
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Eu pensava: - Agora, sou a próxima. Não sei quanto tempo passou
até chegar a minha vez. Enfim, chegou. Levaram-me para uma sala
com um aparelho enorme.
- Deite-se aqui, Dona Cleide - disse a enfermeira com um olhar
meigo e muita delicadeza. Vieram dois técnicos - eu creio que eram
- e a médica. Colocaram minha cabeça numa parte dura,
levantaram meus pés acima das pernas, colocaram uma espécie de
forma de isopor entre elas, provavelmente para que eu também não
as mexesse.
- Vire a cabeça para a esquerda. Pode levantar o braço?
Levantei. Aí, colocaram-me numa posição diferente.
- Não se mexa, não tire o braço desta posição, vire o rosto para a
esquerda, levante mais o queixo, deixe que nós ajustamos o seu
corpo, não ajude, só fique na posição que colocarmos, não mexa...
Nossa! Parece complicado, morri de medo de sair algo errado,
fiquei imóvel feito pedra. Se fosse possível, nem respirava!
Então, a médica disse: - Vamos marcar tudo com uma caneta e
grudar uns adesivos que não devem ser retirados. Se houver algum
problema até o dia da tomografia, volte aqui para colocar outros,
mas procure não tirar as marcações, nem os adesivos.
A enfermeira meiga falou: - Pronto, Dona Cleide, pode levantar.
Quando for fazer a radioterapia, será aqui mesmo, nesta sala e
neste aparelho. Não resisti e perguntei – E a platéia será a mesma?
Tanta gente para me marcar! Imaginei, para aplicar a radioterapia,
deveria também ter o mesmo tanto de gente.
Quando me olhei no espelho, achei tudo feio, traço marcando do
centro do peito até embaixo do braço direito, outra marcação logo
acima do colo, outra, ainda, do lado esquerdo, indicando mais ou
menos a metade da costela. Estranho, não entendi nada, mas
também não me explicaram.
A tomografia mesmo foi confirmada para amanhã.
Cleide (25 de abril de 2006)
Cheguei ao local indicado, diferente daquele da tomografia,
acompanhada por uma enfermeira da radioterapia. Esperei um
pouco e me levaram para uma sala com outra aparelhagem
suntuosa, também assustadora.
Colocaram-me mais ou menos na mesma posição estabelecida no
dia anterior. Depois de alguns procedimentos, a enfermeira viu uma
discreta alergia, causada pelos adesivos, e decidiu: – Vou trocar por
um material mais delicado; porém, pode sair com mais facilidade;
fique de olho; se começar a soltar, venha aqui para trocarmos.
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Cleide (27 de abril de 2006)
Tive mesmo que voltar ao hospital, dois dias depois, para trocar os
adesivos. Além de causarem muita coceira, estavam se soltando.
Como se aproximava o fim de semana, com feriado emendado,
fiquei com medo de as marcas sumirem e isso atrapalhar alguma
coisa na hora da radioterapia. Voltei ao hospital, quando me
informaram da data inicial da radioterapia propriamente dita. Seria
no sábado e eu deveria estar lá as 9:40h, pois haveria uma
conversa preliminar com a médica.
Cleide (29 de abril de 2006)
Cheguei vinte minutos antes da hora prevista. A médica me
informou sobre a receita do dia; eu iria fazer apenas uma
simulação, pois, a depender do resultado da tomografia, as
marcações poderiam ser diferentes daquelas inicialmente feitas.
Entendi a razão das marcações, eram para preservar
principalmente os pulmões, além de outros órgãos, e a aplicação
seria dirigida exatamente à área onde ocorreu o tumor. A mira do
aparelho deve ser a melhor possível.
Esperei muito, quase duas horas. Deu tempo para conversar com
uma senhora, sobre diversos problemas, com direito a um pequeno
desabafo sobre a sua vida pessoal. Ela me pareceu solitária e eu
tentei lhe dar algum apoio, mas não sei se consegui. Acabamos
rindo um pouco, pois ela também era marinheira de primeira viagem
e estava tão insegura quanto eu estava.
Chegou a minha vez. Novamente na sala do tal aparelho, vieram
mais marcações. Pareceu-me haver alguém medindo alguma coisa.
Eu não podia me mexer e não podia ver a movimentação dos
profissionais; só sentir e ouvir. Fiquei da forma como me colocaram,
imóvel, quase sem respirar. De repente, deixaram-me sozinha na
sala e pude sentir como se tirassem uma radiografia, talvez duas.
Voltou aquela platéia em conferência e a confirmação de que o
objetivo era o de uma aplicação certeira.
Interessante! As marcações foram diferentes das primeiras!
Avisaram-me: - Na próxima terça-feira, volte aqui, às 9:00h, pois a
médica vai conversar sobre o tratamento e agendar o seu início.
Haja expectativa! Bem, lá vou eu novamente!
(2 de maio 2006)
40
É triste esse dia para eu começar o tratamento. Nem falo em
coincidência. Hoje, faz 17 anos do falecimento da minha mãe. Não
há como deixar de lembrar. Até o hospital é o mesmo. A gente tenta
esquecer, não associar, mas não tem jeito!
Entretanto, uma lembrança feliz se contrapõe e anula a tristeza. Foi
neste hospital onde nasceu meu filho, José Henrique. E é imbuída
deste pensamento, o de nascente de vida, que vou lutar.
Sérgio (6 de maio de 2006)
Hoje, de manhã, fui com a Cleide no hospital, para mais uma
sessão de radioterapia, a oitava dela. A minha primeira, fazendo
companhia apenas, claro!
Quando chegamos, observei uma senhora assistindo a um desenho
animado na televisão, com um sorriso displicente.
Chamei a atenção da Cleide para que a observasse, comentando a
graça em ver uma pessoa adulta comportando-se inocentemente,
como uma criança.
Ela, sabedora das histórias de muitos que freqüentam o local,
informou-me ser aquela senhora a esposa de um paciente com
câncer na garganta, o qual estava com a característica peça
resultante de uma traqueotomia.
- Ela vive sorrindo, principalmente para o marido, mesmo quando
ele está nervoso! -disse a Cleide.
Observei mais atentamente a mulher, para ver se tirava alguma
coisa do exemplo. Seus cabelos, com muita probabilidade, eram
precocemente brancos e ralos, mas estavam tingidos de loiros, em
clara tentativa de melhorar sua aparência para o mundo externo.
As marcas do tempo em seus olhos ficavam mimetizadas durante
os seus sorrisos.
Na saída, quando o marido voltou da aplicação, tratou-o com
carinho de mãe. E despediu-se das enfermeiras com o mesmo
sorriso carinhoso.
Por tudo, sei não, mas acho que vi uma santa!
Cleide (9 de maio de 2006)
Toda terça-feira, eu passarei por uma avaliação diretamente com a
médica. Neste dia, também tem aplicação. A conversa com a
médica é importante, pois ela avalia o grau de agressividade da
aplicação na pele e, se for necessário, indica os paliativos.
Nesta primeira avaliação, está tudo certo, sem nenhuma alteração.
41
Sérgio (13 de maio de 2006)
Eu nunca perdi a noção de que a Cleide estava em situação muito
pior do que a minha. Eu não poderia exigir nada dela, nem também
negar nada a ela, principalmente do ponto de vista emocional.
No entanto, não há como não se cansar, fraquejar, claudicar, vez
por outra.
Nessas horas, todos precisamos de uma palavra de força, de um
ombro amigo, de um gesto de estímulo.
Nunca imaginei, também, dispor de tantos amigos. Não me faltou
amparo.
Entre diversos casos, destacou-se uma pessoa querida, em cidade
distante, que chorou ao saber da doença da Cleide. Fiquei
comovido e essa solidariedade silenciosa me encheu de energias.
Foram muitos os apoios recebidos, contudo minha fonte inesgotável
e perene foi um grupo de amigos, que chamo carinhosamente de
“os bandidos”.
Chamo assim, por um lado, por contraste jocoso, visto serem
homens íntegros, virtuosos, verdadeiros cidadãos, exemplares pais
de famílias. Por outro, mais que amigos, são verdadeiros cúmplices,
com os quais posso contar a qualquer hora.
A cada encontro, seja para uma cerveja, seja para uma
confraternização, para trabalhos sérios ou outras atividades,
estreitam-se, cada vez mais, os laços que nos unem como
verdadeiros irmãos.
A esses, não preciso nem agradecer. Seria pouco!
Cleide (16 de maio de 2006)
Nessa segunda avaliação, a médica já observou uma leve alteração
na pele. Está um pouco escura e, em alguns pontos, sinto uma
ardência. Ela receitou uma pomada analgésica.
Tenho sentido muito desconforto na axila do braço direito. A
musculatura parece repuxar-se em determinados movimentos. Ela
me explicou haver, realmente, um pouco de retração da pele e a
sensação que tenho é aquela mesma sentida a uns vinte dias após
a cirurgia. Ela recomendou que eu não parasse com a fisioterapia,
até o fim das aplicações radioterápicas. Assim, sentirei menos os
efeitos colaterais, pelo menos em relação à parte muscular.
Cleide (20 de maio 2006)
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Ainda continuo com as aplicações de radioterapia, nestes 15 dias
de idas e vindas ao hospital. Mais uma vez, nas tradicionais salas
de espera, a gente começa a se identificar com algumas pessoas,
com quem acabamos conversando e confrontando os nossos
problemas.
E começam as reclamações. Já não temos por que reclamar das
horas de espera para sermos atendidos, pois fomos avisados de
que as crianças, os idosos e os pacientes internados devem passar
à nossa frente, mesmo que estejamos com horário marcado. O
tempo médio de espera é de uma hora, daí a razão de passarmos a
reclamar das revistas disponíveis, já velhas e também já lidas ou
folheadas mais de três vezes. Reclama-se de tudo, até da água que
mudou o gosto, pode?
De um casal, eu me identifiquei muito com a esposa, senhora
simpática, delicada ao falar e muito educada. O marido, dia desses,
me falou: - Você sabia que, quando entramos aqui para fazer este
tratamento longo, nós mudamos de sobrenome?
Eu não entendi, fiz cara de curiosidade e ele continuou: - Deixamos
de ser os Pereiras, os Silvas, os Souzas, os Cavalcantes, os
Albuquerques, e passamos a ser os Pacientes.
Ri da graça e completei: - E, quando saímos, somos os
Impacientes.
Nos primeiros dias, eu achava aqueles corredores hospitalares
enormes, frios, com pessoas estranhas, um ambiente alheio,
causador de medo, até para se chegar perto dos objetos. Todavia,
hoje, com freqüência de quinze dias seguidos, o corredor ficou
menor, as pessoas já são velhas conhecidas e o ambiente acaba se
afigurando familiar. Por mais que não se queira, a gente acaba se
acostumando. Afinal, além dos pacientes, temos os profissionais de
saúde, seres humanos muitas vezes maravilhosos, ganhando seus
pães de cada dia. Mesmo com seus problemas individuais -
certamente os têm - estão ali com a missão de nos atender e ajudar
a nos tratar. É aí que identifico, naqueles rostos, pessoas como eu,
querendo apenas levar suas vidas adiante.
Pelo tratamento a mim dispensado nesse hospital, não tenho do
que me queixar. Houve sempre muito carinho, atenção e educação.
Cleide (4 de Outubro de 2006)
Como fui informada, começamos com as avaliações, após o
tratamento, para acompanhamento clínico, e fiquei muito ansiosa à
espera dos resultados dos exames dessa primeira avaliação
trimestral.
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Graças a Deus, tudo bem!
Cleide (11 de Outubro de 2006)
Eu estava na fisioterapia e reclamei de um pequeno caroço, perto
da axila, no mesmo lado da mama operada. A fisioterapeuta me
aconselhou a procurar meus médicos.
Mais um susto! Tive que voltar aos mesmos caminhos novamente.
Exames computadorizados, punções, biópsias e lá vem a
expectativa de ter que começar tudo de novo!
Foi apenas uma necrose cirúrgica. Nada maligno. Ufa!
Aí entendi por que devemos fazer este acompanhamento de forma
rigorosa. Qualquer coisa nova é mais fácil curar. É bom que seja
tratada bem no início
Estou fazendo tudo como foi proposto, tratamento,
acompanhamento, exames, cuidados, sem brincadeiras.
A esperança, mais do que nunca, está sempre presente em minha
vida, acompanhada de muito empenho, sem esquecer de minha
responsabilidade com o que mais tem me ajudado: a fé.
Continuo minha trajetória, trabalhando, cuidando de meus filhos,
com meu marido sempre ao meu lado, aproveitando cada hora,
cada minuto ao lado de quem mais amo.
E, principalmente, vivendo!
Sérgio (20 de dezembro de 2006)
Hoje, faz um ano que a Cleide foi submetida à cirurgia.
Lembramo-nos da data com discreta alegria.
A vida foi voltando ao normal e nem percebemos muito. Até essas
notas deixaram de ser feitas, dando lugar à rotina.
No baile de formatura de nosso filho, no começo deste mês, a
Cleide dançou a noite inteira. Fizemos, eu, Marina e José Henrique,
rodízio para dar conta de acompanhá-la, tamanha era a sua
disposição e contentamento.
De verdade, ela me parecia um livro de final feliz.
Analisando o valor desta peripécia textual, talvez mais
adequadamente chamada de conjunto de notas, entendo que
atingiu os objetivos principais.
Na relação custos versus benefícios, os próprios custos, apenas
tempo e trabalho de digitação, já foram benéficos. A tarefa serviu
como terapia de casal, nos tempos difíceis. Era uma válvula de
escape e um registro de esperanças. Também uma razão para
conversas e ajustes de comportamento.
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Para a Cleide, acredito, ajudou a focar a cura, tornando-a mais
clara, mais próxima e menos indolor.
Ainda resta um desejado subproduto, imaginado desde o início, o
de que sirva a outras pessoas ou casais que sejam vítimas dessa
moléstia, ou de outras, como referência, até mesmo para reduzir a
ansiedade comum ao acontecimento.
A esses, mesmo sem conhecê-los, concitamos a não esmorecer,
pois, quem trava um combate pela própria vida, luta pela vida de
todos, pela vida da espécie, luta pelo valor mais sublime da
aventura humana.
Um segundo subproduto desejado quero mostrar na forma de uma
estória, a seguir, escrita por mim no ano de 2004, antes da
ocorrência de todos os fatos aqui relatados.
O Causo do Contador de Causos
Ninguém sabia se ele era chamado Conteiro por fazer colares e
pulseiras de contas coloridas ou, erroneamente, por contar estórias,
chamadas pelos moradores de causos.
Era comum encontrá-lo, depois da missa, sentado no banco da
praça, mexendo com as miçangas coloridas e contando estórias.
Era sentado no banco mesmo, pois os pés ficavam no assento e o
traseiro no espaldar. Todo tempo, se abaixava para pegar fios ou
agulhas entre os pés.
Não tinha cara, nem jeito de narrador. Era um tipo comum, sempre
de calça velha, camisa com um ou outro pequeno cerzido e sapatos
muito usados, mas todos limpos.
De seus contos, as moças preferiam os romanceados; as crianças,
contos de bichos; os homens, casos de assombração.
Era uma figura de segunda ou terceira categoria na sociedade local,
muito abaixo do padre, do prefeito, do juiz ou dos comerciantes.
Talvez menos importante que o coveiro!
Era apenas o Conteiro!
Em um domingo, a diretora do colégio saía da missa, de braço dado
com sua cunhada, quando comentou com uns casais parados na
escadaria da igreja:
- Engraçado, faz tempo que não vejo o Conteiro!
Foi então que todos se deram conta: o Conteiro sumira.
Iniciou-se uma romaria em direção ao casebre onde morava o
homem, quase na zona rural, de tão longe. Até um bêbado tentou
seguir o grupo, mas não passou do segundo barreiro.
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Surgiram mais estórias do que as inventadas por ele.
- O Conteiro se jogou da ponte velha!
- Nada! Ele se apaixonou pela moça ruiva e seguiu o teatro dos
mamulengos.
- Eu ouvi dizer que ele foi chamado na Capital, para receber
uma herança das grossas!
- Será que ele não está entrevado no hospital? Vamos lá?
O delegado convocou o chaveiro e mandou abrir a porta da casa de
madeira.
Casa arrombada, a polícia nada encontrou além de móveis comuns
e de um fogão de duas bocas. Não havia documentos nem objetos
pessoais. O delegado deduziu que o procurado viajara, ou evadirase,
por alguma razão pessoal ou familiar. Ninguém concordou com
a hipótese!
Contudo, a figura pública foi logo esquecida, com a memória sendo
superada pelas novidades das novelas e das eleições.
Meses passados do Ano Novo, a diretora, saindo da novena,
novamente de braço dado com a cunhada, apontou e gritou com
sua voz rouca: - Olha lá o Conteiro!
De roupa nova, instrumentos mais apropriados para a sua arte
manual, rádio de pilha e até chapéu preto de abas moles, o artista
reapareceu sentado do mesmo jeito e no mesmo banco.
A notícia era repassada, com certo alívio e satisfação contida.
Sua estória mais nova era justamente a do seu sumiço.
Contou que um fazendeiro, morador em cidade próxima, o havia
“contratado a peso de ouro, quer dizer, de prata”, para contar
estórias à sua filha doente.
Os médicos não conseguiam curar o mal e a garota piorava a cada
dia, já desenganada de vez.
Ele passava boa parte do dia inventando e contando estórias para
sua paciente, cuja atenção incomum às suas palavras e gestos
tornou a relação comercial em afeto quase paternal.
Quando ele percebia que um tema obtinha maior preferência,
dedicava-se mais naquele tipo de enredo e aprimorava os contos.
Entretanto, como “o destino é senhor de tudo, a menina foi para o
céu, vestida de anjo branco, com os cabelos penteados e
enfeitados por uma tiara de contas coloridas, feita por mim”.
O pai, homem esclarecido, mesmo com todo o sofrimento,
agradeceu a dedicação do Conteiro, pagou o combinado e ainda
forneceu mais uns trocos para a viagem de volta.
E, assim, ele retornou à sua cidade, com o sentimento do dever
cumprido.
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- “Por que o ofício de um contador de estórias é fazer o ouvinte
esquecer, por algum tempo, as suas dores”.
Para citação bibliográfica, sugerimos:
FREITAS, Cleide M. P.; FREITAS, Sérgio A. Um câncer no seio de nossa família, 2008,
Brasília, DF. (on-line). Disponível em: http://www.reforme.com.br/Kitnet/UM CÂNCER NO SEIO
DA NOSSA FAMÍLIA.pdf .(Data de acesso)
Contatos:
Cleide – cleidempfdf@gmail.com
Sérgio – sergioafdf@gmail.com